sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Vencendo desafios na pregação do Evangelho

Texto base: Atos 14.8-22 Uma das principais missões da Igreja neste mundo, talvez a principal, é de anunciar o Evangelho e tornar Deus conhecido para aqueles que ainda não o conhecem, proclamando que Deus enviou seu Filho Jesus Cristo, para redimir e salvar os pecadores. A Igreja primitiva estava empenhada em cumprir essa missão, sendo que os apóstolos e demais líderes cristãos se dedicavam em pregar a Palavra e formar novas igrejas nas cidades, com ministérios entre judeus e gentios. Porém o cumprimento dessa missão nunca foi fácil, pois em todos os lugares houve oposição à pregação do Evangelho, perseguição aos cristãos e tentativas de barrar o crescimento da Igreja. No contexto da passagem lida encontramos Paulo e Barnabé em sua primeira viagem missionária. Eles estavam servindo à Igreja de Antioquia, quando o Espírito Santo ordenou que os dois fossem separados para uma obra de anúncio do Evangelho (Atos 13). Após pregar em algumas cidades, Paulo e Barnabé chegaram a uma localidade chamada Listra. Nessa cidade Paulo teve uma das experiências mais dolorosas de sua vida, pois foi apedrejado até quase morrer. Todavia, o Evangelho continuou a ser pregado, a despeito das dificuldades encontradas. É possível que em nossa realidade não enfrentemos exatamente as mesmas situações pelas quais passaram Paulo e os demais apóstolos, todavia certamente vamos nos deparar com obstáculos que, a depender de nosso desenvolvimento espiritual, poderão parecer intransponíveis. Vamos destacar algumas questões relevantes que encontramos no texto. 1) Risco de termos o foco mudado para pessoas, e não para Deus (v. 11-13) Conforme o relato do texto que lemos, Paulo e Barnabé estavam pregando a Palavra e havia um homem paralítico de nascença entre as pessoas interessadas. Paulo olhou firmemente para o homem e ordenou que se colocasse em pé, e imediatamente ele foi curado, passando a andar. A multidão que acompanhou a cena ficou perplexa diante do acontecimento. Aquela cura era algo impossível, e por isso todos ficaram tão admirados. A admiração foi tão grande que a única explicação que veio à mente daquelas pessoas foi: os deuses desceram até nós em forma humana. Dentro daquilo que conheciam, as pessoas da multidão viram que Paulo era o principal pregador, por isso o chamaram de Mercúrio, que na mitologia romana é o deus mensageiro e deus do comércio, dos negociantes. Ele corresponde a Hermes na mitologia grega. Barnabé, por sua vez, foi chamado de Júpiter, que, pela mitologia romana, é o rei dos deuses, e corresponde a Zeus na mitologia grega. As pessoas ficaram enlouquecidas e queriam oferecer sacrifícios aos apóstolos. Elas julgavam que eles eram deuses e resolveram lhes direcionar sua adoração. Infelizmente essa é a tendência do ser humano, que parece necessitar de algo visível para adoração, não conseguindo se contentar com o Deus invisível, o que acaba gerando idolatria. Esse é um perigo que as pessoas que pregam o Evangelho correm, principalmente aqueles que possuem eloquência e falam a multidões: os ouvintes podem confundir as coisas, ficando mais admirados com quem prega do que com o Deus que é anunciado. Olham para alguém que é usado como instrumento por Deus e acabam confundindo as coisas, crendo que o poder é de quem prega, não distinguindo Deus de seus servos. Assim, exaltam o ser humano em lugar de Deus. Os apóstolos, diante desse cenário, contavam com a admiração do povo, mas pelo motivo errado. Eles eram aclamados e exaltados, mas não era isso que buscavam. Paulo e Barnabé não se deixaram tomar de vanglória, mas imediatamente rejeitaram a adoração e o tratamento que a multidão lhes queria dar, esclarecendo que o objetivo da sua pregação era justamente mostrar àquelas pessoas que havia um único Deus, criador de todas as coisas, que deveria ser adorado, e que eles não deveriam voltar essa adoração a nenhum outro ser. Os apóstolos poderiam ter sido tentados a interpretar aquela popularidade como algo benéfico, e seria possível que seus egos falassem alto, porque estavam sendo o centro das atenções. Paulo e Barnabé poderiam até mesmo utilizar essa situação para obter alguma vantagem pessoal ou para exercer alguma forma de controle sobre as multidões, mas o coração deles não estava voltado para a satisfação pessoal nem para a busca de reconhecimento perante as pessoas, pelo contrário, eles tinham como único propósito de vida glorificar a Deus e torná-lo conhecido por todos. A atitude de Paulo e Barnabé, de rasgar suas vestes, demonstra o quanto eles ficaram indignados ao verem a ignorância e a idolatria daquele povo, mas ao mesmo tempo sentiram compaixão, buscando esclarecer a todos que eles eram meros mortais como qualquer outra pessoa, e que somente a Deus é que deveria ser dada adoração. Eram dois apóstolos que tinham firmeza na fé, convictos de qual era a sua missão, e com o coração voltado unicamente para Deus, dispostos a enfrentar qualquer desafio por amor ao Altíssimo. Eles tinham o temor do Senhor em seu coração, o amor a Deus acima de tudo e o amor ao próximo como bússolas para guiar seu comportamento. Cada um de nós está sujeito a ter, em algum momento, problemas com o ego. Não é necessário ocorrer uma situação como a narrada no texto, de expressa idolatria dos gentios em relação aos apóstolos, mas as pessoas podem alimentar sobre nós uma visão equivocada, atribuindo a nós um poder que não temos, uma condição que não é nossa, mas de Deus. Muitos, quando isso acontece, acabam cedendo à tentação e se tornam o centro das atenções. Há denominações religiosas que em vez de serem conhecidas por pregarem e viverem o Evangelho, são destacadas em razão de um líder, que chama para si toda a atenção, como se a sua oração fosse mais forte, ou como se tivesse um relacionamento especial com Deus e, por tal razão, pudesse servir de ponte entre Deus e os fieis, tomando até mesmo o lugar de Cristo de uma forma camuflada, já que pregam que Jesus é o Senhor, mas não abrem mão de serem idolatrados. Paulo e Barnabé mostram que os servos de Cristo devem ser portar como servos, não almejando para si nenhum privilégio ou honra perante as pessoas. A nossa pregação deve apontar para Cristo, levando as pessoas ao reconhecimento de sua condição de pecadoras, a fim de que haja conversão e salvação. 2) O ser humano é muito inconstante, volúvel (v. 11-13 e 19) Aquela multidão que, pouco antes, considerava Paulo e Barnabé como deuses vindos em forma humana, foi rapidamente convencida de que eles eram impostores. O texto narra que vieram alguns judeus de Icônio e Antioquia, e incitaram as multidões, de forma que Paulo foi apedrejado e dado como morto. A passagem deixa muito evidente a inconstância do ser humano, porque de um momento para outro pode mudar de ideia e ter atitudes totalmente incoerentes. No caso, as multidões que exaltavam Paulo e Barnabé como deuses, agora, sob influência dos judeus perseguidores, procuravam matar Paulo por meio do apedrejamento. Ainda que alguns possam não ter participado jogando pedras, também não defenderam Paulo. E o que mudou para que isso acontecesse? Bastou a maledicência dos judeus para que a multidão mudasse de opinião e se esquecesse dos sinais que Deus fizera por meio dos apóstolos. Infelizmente, isso demonstra o quanto o ser humano pode ser volúvel, passando a odiar alguém a quem juravam amar; tratando como inimigo alguém que antes era bem quisto; desprezando de forma ingrata quem antes nos fez bem, etc. O poeta Augusto dos Anjos escreveu o poema Versos Íntimos, e em um dos versos é dito o seguinte: “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Esse verso do poema retrata exatamente o que aconteceu com Paulo: os mesmos que o exaltaram tentaram matá-lo com pedradas, numa demonstração de incoerência e volubilidade muito grande. Existem pessoas que se mostram volúveis porque não têm firmeza em suas convicções; as que se deixam conduzir facilmente por pessoas que sabem manipular; as que mudam de opinião conforme a conveniência, etc. Conheci um empresário que sempre elogiava demais os funcionários, enaltecendo sua inteligência, habilidade, honestidade, mas quando um funcionário deixava a empresa, tornava-se a pior pessoa do mundo, perdia todas as qualidades! Isso soa a falsidade! Embora esse seja um traço do ser humano, não pode se fazer presente no cristão, pois é comum a quem não conhece a Deus e a pessoas imaturas, fracas e de caráter duvidoso. O cristão não deve ser volúvel, pelo contrário, deve ser confiável, firme em suas convicções. Jesus ensinou isso em Mateus 5.37: “³⁷ Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.” Mateus 5:37 O discípulo de Cristo não varia sua opinião conforme a conveniência ou conforme ventos de doutrina, nem é induzido pela maledicência ou por fofocas, pelo contrário, é alguém que se reconhece pela firmeza de palavra e pela serenidade. 3) As tribulações não devem nos desanimar (v.22) Fazendo uma leitura dos capítulos 13 e 14 de Atos, percebemos que Paulo e Barnabé estavam sendo perseguidos por causa da pregação do Evangelho, e isso ocorreu não apenas na cidade de Listra, mas também em Antioquia da Pisídia e Icônio. No versículo 19 do capítulo 14 é dito que judeus da Antioquia e Icônio chegaram a Listra e instigaram as multidões contra Paulo, ocasião em que ele foi apedrejado e arrastado para fora da cidade. É interessante notar que esses judeus que causaram o tumulto estavam realmente perseguindo Paulo e Barnabé, porque nos versículos 2 a 5 vemos que, na cidade de Icônio, os judeus que não creram na pregação dos apóstolos falaram mal deles a ponto de muitos gentios ficarem revoltados contra os pregadores do Evangelho, e mesmo diante de vários sinais e prodígios feitos por Deus por intermédio dos apóstolos (v. 3), o povo da cidade se dividiu, sendo que alguns apoiavam os judeus e outros, os apóstolos, havendo a ameaça de apedrejamento (v. 5). E no capítulo 13, versículo 45, é dito que na cidade de Antioquia houve judeus que ficaram com inveja de Paulo e Barnabé e blasfemavam, contradizendo o que Paulo pregava. No versículo 50 é dito que esses judeus incitaram perseguição contra os dois apóstolos, de maneira que eles foram expulsos daquele território. Quando lemos o nosso texto base constatamos que eram os mesmos judeus que estavam seguindo Paulo e Barnabé para lhes fazer oposição. Satanás não fica tranquilo ao ver o Evangelho sendo pregado e pessoas entregando suas vidas a Cristo, de maneira que sempre fará oposição. Ele levanta pessoas para questionar os ensinamentos bíblicos, para contradizerem os pregadores e líderes cristãos, para difamá-los e confrontá-los, tentando minar sua autoridade e credibilidade, incita contendas e divisões no meio da Igreja, etc. A perseguição aos discípulos de Jesus sempre existiu e continuará existindo, esta é uma realidade que nós não temos como mudar, porque estamos pregando o Evangelho que dá vida, que liberta as pessoas do jugo de Satanás e do pecado, portanto, é de se esperar que haja oposição. Diante das perseguições a postura de Paulo e Barnabé foi de coragem, fé e perseverança. Em Listra Paulo foi apedrejado e dado como morto, arrastado para fora da cidade. Seria razoável supor que, depois desse acontecimento, ele nunca mais passasse pela cidade de Listra, local em que ele foi brutalmente agredido. Entretanto, o texto bíblico registra que, após acordar, ele se levantou e simplesmente entrou de novo naquela cidade! No dia seguinte, Paulo e Barnabé foram para outra cidade, chamada Derbe. Certamente Paulo estava muito machucado. O apedrejamento é uma violência que causa ferimentos no corpo todo. Mas Paulo não ficou aguardando para se recuperar das lesões, ele se pôs a caminho para cumprir sua missão de anunciar o Evangelho. Em Derbe a Palavra diz que foram feitos muitos discípulos. Depois, Paulo e Barnabé voltaram para Listra, aquela cidade em que Paulo quase fora morto. E ainda voltaram para Icônio, onde os apóstolos haviam sido ameaçados de apedrejamento, e Antioquia, de onde foram expulsos anteriormente, cidades de onde eram aqueles judeus que incitaram a multidão para apedrejar Paulo! Os apóstolos não se deixaram abalar pelas críticas, ameaças, violência, mentiras, nem demonstraram temor por suas vidas, mas agiram com ousadia no Senhor, sabendo que, se tivessem que morrer por Jesus, isso seria uma honra e eles sabiam exatamente qual era o seu destino após a morte. E se Jesus tivesse planos de continuidade deles na terra para proclamar o Evangelho, ser-lhes-ia concedido livramento. O fato é que Paulo e Barnabé não se sentiam intimidados pela violência dos perseguidores nem pela inconstância das pessoas, uma vez que sua fé estava firmada em Deus e eles tinham plena consciência de que a vontade de Deus era que o Evangelho fosse anunciado em todo o mundo, para que todos pudessem conhecer Jesus Cristo e receber a oportunidade de ter acesso ao Reino de Deus. É interessante notar que quando Paulo e Barnabé voltaram pelas cidades por onde já haviam passado, eles não ficaram se queixando de sua sorte, das violências e perseguições, pelo contrário, eles procuraram animar os convertidos, fortalecê-los e mostrar que as tribulações faziam parte do caminho de quem está seguindo para o Reino de Deus. Quando olhamos para a Igreja de Jesus hoje, percebemos que nem sempre temos a mesma fé e a mesma disposição que houve em Paulo e Barnabé, porque muitas vezes deixamos de frequentar a Igreja e de anunciar o Evangelho por causa de coisas pequenas, que não deveriam nos impactar tanto. Basta que algum irmão faça alguma crítica a nós ou ao nosso trabalho na obra e já desanimamos. Paulo suportou um apedrejamento feito por uma multidão, mas nós costumamos desistir de ministérios e trabalhos na obra apenas porque alguém jogou uma pedra em nós. Não suportamos oposição como Paulo suportou. Qualquer coisa é motivo para abandonarmos nossos dons e talentos e deixarmos de fazer nossa parte no corpo de Cristo. Que dizer, então, de pregar para não crentes? Ao mínimo sinal de oposição já desistimos, porque não queremos nos indispor com ninguém. Se não conseguimos resistir firmemente diante de pequenos obstáculos, como cumpriremos a ordem de Jesus para perseverarmos até o fim? “¹³ Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo.” Marcos 13:13 Assim como Paulo e Barnabé, é necessário que tenhamos nossa fé firmada em Jesus Cristo de maneira que mesmo em meio às tribulações nos mantenhamos firmes, sem recuar diante de oposições. Nossa meta deve ser cumprir a vontade de Deus, ainda que isso acarrete perseguição e nos traga sofrimentos. CONCLUSÃO Hoje somos desafiados a seguir o exemplo de Paulo e Barnabé, que mesmo diante de constante oposição e perseguição, correndo risco de morrer, prosseguiam firmes no cumprimento de sua missão de pregar o Evangelho e levar ao conhecimento de todos que Jesus Cristo é o Senhor, e que somente por meio dEle é que podemos ser salvos. É tempo de deixarmos nosso ego de lado e amadurecermos na graça de Deus, para não nos deixarmos desanimar por coisas pequenas que não chegam nem perto do que os apóstolos passaram em seu ministério. Devemos sempre lembrar que o objetivo de nossa vida é glorificar a Deus. Ele é o centro de tudo, e não nós. O Evangelho é para conduzir as pessoas a Deus, por meio de Jesus Cristo, e não para que nós sejamos de alguma forma exaltados. Que Deus nos conceda maturidade e fortalecimento espiritual para cumprirmos nossa missão com ousadia, sem nunca desanimarmos. José Vicente

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