terça-feira, 3 de maio de 2022

VIVENDO PARA SERVIR

 


Mateus 20.29-34

O texto que lemos apresenta a história de dois cegos que receberam de Jesus o milagre da cura, após insistirem em clamar por Ele apesar da grande multidão que o cercava.

Trata-se de uma passagem bem conhecida da Bíblia, e que se encontra narrada também no Evangelho escrito por Marcos, no capítulo 10:46-52, e em Lucas 18.35-43, mas ali os evangelistas se concentraram apenas em um dos cegos, de nome Bartimeu, talvez por ser o que mais tivesse se destacado no episódio.

Trata-se de uma passagem rica em ensinamentos, que mostra mais um momento em que Jesus, após ministrar um ensino aos seus ouvintes, passou à prática do que havia ensinado, de maneira que as pessoas pudessem ter uma melhor compreensão e percebessem que a fé deve vir acompanhada de atos que a confirmem.

No texto podemos encontrar três personagens que, por meio de sua atuação, nos transmitem ensinamentos que devem nos acompanhar em nosso dia a dia como cristãos.

 

      1)  A MULTIDÃO

O texto registra que uma multidão acompanhava Jesus quando ele saiu de Jericó. Os Evangelhos sempre relatam que Jesus era seguido por multidões quando se deslocava pelas cidades, pelas aldeias, pelos campos, havendo poucos momentos em que ele não se via cercado de centenas ou até milhares de pessoas.

Essa multidão ouvia os ensinos de Jesus, experimentava o seu poder ao receber curas, libertações, e até mesmo alimento, como no caso da multiplicação de pães e peixes. E como sempre, a multidão era formada por diversos tipos de pessoas. Havia os que estavam interessados sinceramente em ouvir os ensinos de Jesus sobre o Reino de Deus. Mas também havia os que apenas buscavam o beneficio imediato que poderiam obter pela intervenção sobrenatural de Jesus.

Certamente nessa multidão havia muitos que, embora estivessem seguindo Jesus e testemunhando seus grandes feitos, não assimilavam seus ensinamentos, pois suas mentes estavam engessadas pela religiosidade dos ritos judaicos, pelos pensamentos moldados à cultura da sociedade em que viviam, ou por qualquer outro motivo.

E isto fica claro quando o texto nos diz que a multidão repreendia os cegos que clamavam a Jesus, ordenando que ficassem calados (v. 31).

Por que a multidão se incomodou com os cegos chamando por Jesus? Por que a multidão os repreendia para que se calassem? Por que as pessoas daquela multidão não se dispuseram a conduzir os cegos até Jesus? Onde estava a compaixão daquelas pessoas?

Talvez simplesmente porque aquelas pessoas não tivessem realmente compreendido e assimilado ainda o que Jesus vinha ensinando. Eles seguiam Jesus, ouviam seus ensinos, mas isso não penetrava em seus corações e não mudava suas mentes.

Pouco antes, no versículo 28, Jesus disse que não tinha vindo para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos. E ele assim falou porque a mãe de João e Tiago havia pedido a Jesus que seus dois filhos se sentassem ao lado dele no seu Reino, um à sua direita e outro, à esquerda, gerando discussão entre os discípulos.

Então Jesus afirmou que quem quisesse ser o primeiro deveria ser servo dos outros, e complementou explicando que ele próprio viera para servir, e não para ser servido.

Se a multidão tivesse entendido a mensagem, certamente não teria repreendido os cegos, pelo contrário, as pessoas iriam se dispor a conduzi-los até Jesus, cumprindo o papel de servir ao próximo. Mas a reação das pessoas foi de mandar os cegos se calarem, bem ao contrário do que Jesus vinha ensinando.

A conduta daquele povo que ali estava passa a impressão de que as pessoas estavam agindo de forma egoísta, querendo Jesus apenas para elas e se considerando aptas a escolher quem poderia se aproximar de Jesus.

Talvez eles achassem que Jesus, por ser um mestre sábio e poderoso em obras, não deveria perder tempo com dois cegos que o importunavam. Talvez suas mentes estivessem muito cheias de religiosidade, mas suas vidas se mostravam vazias da prática do amor de Deus.

A multidão representa todos nós que seguimos a Jesus, que vemos a realização de obras transformadoras, mas não nos dispomos a servir como pontes para que outras pessoas cheguem até o Mestre.

Nós, que conhecemos a Jesus e aos seus ensinamentos, não raras vezes nos assemelhamos àquela multidão, querendo usufruir das bênçãos de Jesus de forma egoísta, sem compartilhar com nosso próximo o conhecimento sobre Cristo, a prática do amor e da compaixão, e em vez de conduzir pessoas a Cristo, acabamos por afastá-las.

Quantas vezes cedemos à tentação de escolher com quem vamos compartilhar o testemunho sobre a Graça de Jesus que se manifestou em nossas vidas, deixando de lado aqueles que, de certa forma, não consideramos que mereçam ouvir o Evangelho e ter um encontro com Cristo?

Quantas pessoas que necessitam ter um encontro com Jesus permanecem na ignorância porque não queremos compartilhar o “nosso” Jesus com elas! Porque não estamos dispostos a pegarmos em suas mãos e conduzi-las ao Mestre!

Precisamos ter cuidado para não agirmos como aquela multidão, que em vez de demonstrar amor e compaixão pelos necessitados, mandava que se calassem e lhes negava a oportunidade de terem suas vidas transformadas pelo encontro com Cristo.

Fomos chamados para servir, imitando nosso Senhor Jesus, de forma que por nosso intermédio muitos possam conhecer o Mestre como nós O conhecemos.

 

      2)    OS CEGOS

Outros dois personagens que vemos no texto são os dois cegos que estavam à beira do caminho (v. 30). Esses homens estavam ali mendigando, pois naquele tempo a sua deficiência não lhes permitia o exercício de algum ofício, e não havia benefícios da previdência social ou Sistema Único de Saúde para auxiliá-los, de maneira que a opção que lhes restava era contar com a compaixão das pessoas por meio de esmolas.

Eles estavam sentados à beira do caminho, pois era um lugar onde certamente passariam muitas pessoas ao longo do dia, o que aumentava suas chances de receberem alguma coisa dos transeuntes.

Mas o texto revela uma coisa muito importante sobre os dois cegos: eles eram judeus, não eram gentios! Ou seja, eles eram parte do povo de Deus, estavam inseridos na aliança que Deus fez com Israel.

Compreendemos isso quando observamos a forma como chamaram por Jesus, que revela que tinham conhecimento quanto às profecias a respeito do Messias, pois utilizaram um título messiânico: “Senhor, Filho de Davi”.

A expressão Filho de Davi é uma referência à promessa dada por Deus por intermédio dos profetas, de que o Redentor de Israel, o Messias, seria da descendência do rei Davi, conforme vemos em Jeremias:

“Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra.” (Jeremias 23:5)

Portanto, os cegos eram conhecedores das profecias. Eles conheciam a Lei de Deus e as profecias que davam esperança aos israelitas.

Além disto, o texto permite concluir que aqueles homens já tinham ouvido falar de Jesus. Provavelmente já haviam chegado aos seus ouvidos os relatos sobre as curas, as libertações, os ensinamentos de Jesus. E isso os levou a crerem que Jesus era o Messias.

Movidos por essa convicção, eles clamavam a Jesus porque acreditavam que Ele tinha poder para curá-los da cegueira. Sem ter conhecido Jesus pessoalmente, mas apenas pelo testemunho que havia chegado aos seus ouvidos, eles manifestaram o desejo de ter um encontro com Jesus, na plena confiança de que isso transformaria suas vidas para sempre. Eles não se contentaram em conhecer Jesus pelas experiências dos outros, mas queriam eles próprios ter a sua experiência pessoal com o Mestre.

Entretanto, eles esbarraram na falta de boa vontade daqueles que já se encontravam seguindo Jesus. A multidão ordenava que se calassem, e mesmo assim eles clamavam com voz ainda mais alta, até que foram ouvidos por Jesus, que os chamou para perto de si e os curou, permitindo que passassem a enxergar.

Esses cegos representam muitos que, embora já tenham ouvido falar sobre Jesus, já leram o que a Bíblia ensina sobre Ele e creem que Ele é o Filho de Deus, ainda não tiveram uma experiência pessoal com o Mestre, um encontro transformador que possa lhes abrir os olhos espirituais para compreenderem com maior clareza as verdades bíblicas.

Representam pessoas que talvez congreguem em igrejas locais, participam dos cultos e demais atividades, mas pode ser que tenham um conhecimento de Jesus baseado nas experiências dos outros, e não na sua própria experiência.

Talvez eles representem também aquelas pessoas que estão passando por situações de grande aflição, que necessitam da ajuda de Jesus e se colocam em oração, esperando que o Mestre ouça o clamor e venha prestar o socorro, e infelizmente não contam com o apoio de outros nessa luta.

O fato é que esses dois cegos nos ensinam que é necessário manter a fé, ainda que as circunstâncias ao nosso redor sejam desfavoráveis, e ainda que pareça impossível encontrar uma saída.

Eles acreditavam que Jesus poderia curá-los e nem mesmo a oposição da multidão abalou a sua fé. Eles continuaram crendo e a sua fé foi o combustível que os levou a continuar buscando por Jesus.

Os problemas, as dificuldades, as turbulências da vida não devem abalar nossa fé, pelo contrário, devem nos conduzir a buscar ao Senhor com mais intensidade. A atitude da multidão não abalou a fé dos dois cegos, mas eles continuaram convictos de que Jesus podia transformar suas vidas.

A reação correta diante das adversidades não é deixar de crer, mas é crer com ainda maior firmeza, sabendo que nosso Senhor é poderoso para fazer o impossível.

Os dois cegos também nos ensinam que é essencial perseverar na oração. O texto diz que quando a multidão tentou calar os cegos eles passaram a clamar ainda mais, conforme versículo 31.

Diante do grande ruído, das repreensões recebidas e da multidão que tentava abafar suas vozes, os cegos não desanimaram, mas continuaram a clamar por Jesus, crendo que seriam ouvidos, como de fato foram.

Nem sempre nossas orações são respondidas de forma imediata e da maneira como esperamos. Todavia, a perseverança na oração é uma atitude que o próprio Jesus incentivava, e seus apóstolos, seguindo o mesmo ensinamento do Mestre, também reafirmaram em suas lições aos cristãos, como Paulo ao escrever aos Romanos:

“Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação, perseverem na oração.” (Romanos 12:12)

Os dois cegos foram perseverantes em seu clamor e sua fé foi recompensada com a cura de sua cegueira. Quem espera no Senhor não é desamparado e não fica sem resposta. Por isso, sejamos perseverantes na oração.

 

       3)    JESUS CRISTO

O terceiro e mais importante personagem dessa passagem é Jesus Cristo.

Jesus ministrava lições por meio de suas palavras e também por suas atitudes. Pouco antes Ele havia ensinado que os seus discípulos devem servir, assim como Ele próprio veio para servir. Agora, ele mostra de forma prática o que havia ensinado em palavras, servindo a duas pessoas que os outros provavelmente consideravam indignas da presença do Mestre.

Jesus manda que os dois mendigos cegos se aproximem e estabelece um diálogo com eles, perguntando o que queriam que lhes fizesse. E após ouvir deles que desejavam enxergar, o Mestre se encheu de compaixão e os curou, e imediatamente eles passaram a segui-lo.

Jesus ensinou, com isto, que Ele não faz acepção de pessoas, mas está disposto a servir a quem clamar pelo seu nome, não importando a condição social ou financeira. Diante de uma multidão que queria excluir os dois cegos e impedir que chegassem até Jesus, o Mestre os acolheu. Ele serviu duas pessoas miseráveis que não tinham como oferecer nada em troca, senão a gratidão e a disposição de seguir o Senhor.

Portanto, devemos ter essa consciência, de que Jesus não nos despreza por sermos meros mortais pecadores, carregados de problemas, traumas e doenças físicas ou espirituais.

Se nos aproximarmos de Jesus com fé, como fizeram os dois cegos, certamente Ele não nos rejeitará, pois Ele mesmo afirmou isso:

“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.” (João 6:37)

 

Jesus também nos ensina que seus ouvidos estão sensíveis para ouvir nosso clamor, e que mesmo em meio a todo o ruído ao nosso redor, mesmo com outras vozes se levantando, Ele consegue nos ouvir e se volta para acudir ao que recorre a Ele com fé.

A multidão era grande e certamente o ruído era intenso. Eram muitas pessoas falando ao mesmo tempo, de maneira que se tornava muito difícil, quase impossível, diferenciar as vozes dos dois cegos clamando por Jesus. Suas vozes eram abafadas pelo alvoroço da multidão. Talvez houvesse pessoas junto de Jesus conversando com Ele, de maneira que realmente seria improvável que Ele conseguisse ouvir os clamores de dois mendigos que estavam à beira do caminho e nem tinham condições de acompanhar a multidão e ir ao encontro de Jesus sem que alguém os ajudasse.

Mas mesmo assim Jesus os ouviu e parou para conversar com eles.

Sim, Jesus ouve nossa voz! Não importa o que esteja acontecendo ao redor, Ele ouve. Mas não é pelo volume da nossa voz, e sim pela fé, pois esta é que toca o coração de Jesus, assim como aconteceu com os dois cegos.

Portanto, creiamos nessa verdade: ainda que não tenhamos força para clamar em alta voz, devido ao enfraquecimento causado pela dor e o sofrimento, Jesus consegue ouvir a nossa voz, e está pronto para vir em nosso socorro com muito amor.

 

CONCLUSÃO

Diante do que o texto bíblico nos ensina, entendemos que é tempo de reafirmarmos nossa fé em Jesus por meio de uma vida prática de amor e serviço ao próximo, atuando como pontes entre as pessoas e Jesus, e jamais nos tornando empecilhos ao relacionamento das pessoas com Cristo.

Também cumpre lembrar que nossa fé em Jesus não é em vão, e que devemos perseverar na oração, buscando a presença de Cristo continuamente, pois com Sua Presença vem, consequentemente, tudo o que é necessário para vivermos de modo a glorificar a Deus.

E assim como fizeram os dois cegos, é essencial que demonstremos gratidão ao nosso Senhor Jesus, seguindo-o com o coração cheio de amor, alegria e sinceridade.

Há muitas pessoas que precisam se achegar a Jesus, como os dois cegos de Jericó, mas lhes falta uma ponte, alguém que as ajude, e a Igreja de Cristo tem essa função, de servir às pessoas apresentando-lhes Jesus e dando-lhes suporte para que possam caminhar com o Mestre.

Que Deus nos capacite a cumprirmos nossa missão de forma digna.

José Vicente

domingo, 13 de março de 2022

DISPOSIÇÃO DE VIVER PARA CRISTO

 


Mateus 16.24-28

Quando observamos a situação espiritual vivida por cristãos ocidentais em comparação com os que se encontram na Ásia e África, percebemos que a cultura ocidental acabou trazendo uma certa acomodação e um distanciamento quanto aos ensinos bíblicos.

Enquanto os cristãos asiáticos e africanos se veem constantemente em situações perigosas que desafiam a sua fé e os levam a exercitarem o que aprenderam de Jesus, em grande parte os cristãos ocidentais acabaram se deixando levar pelas sutilezas de um sistema que procura derrubar a fé por meios menos agressivos e mais envolventes, conduzindo sutilmente os cristãos a se ocuparem com outras coisas e a terem a ilusão de que a vida espiritual morna que levam é suficiente para agradar a Deus.

Assim, em vez de se empenharem em observar os ensinos da Palavra de Deus, dedicam seu tempo a diversas outras coisas que lhes roubam a atenção e a energia, e aos poucos vão sendo moldados ao formato do mundo, com suas mentes repletas de ideias relativistas e liberais, em um panorama onde o egocentrismo impera cada vez mais.

Com esse cenário, os cristãos ocidentais passam a se preocupar muito mais consigo mesmos do que com a Igreja de Cristo, tornando-se incapazes de fazer sacrifícios pelo bem do Corpo de Cristo, o que leva a um esfriamento espiritual destruidor e a comportamentos liberais e opostos à Palavra.

Entretanto, é necessário reavivar em nossa mente as Palavras ditas por Jesus que estão registradas em Mateus 16.24-28, porque elas nos chamam de volta ao centro da nossa fé, que é o próprio Jesus Cristo.

Jesus inicia afirmando que aquele que deseja ser seu discípulo deve negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguí-lO. São três atitudes que estão ligadas umas às outras, são interdependentes.

A primeira atitude, de negar-se a si mesmo, indica o caminho do Teocentrismo. Isto porque o mundo sempre teve como uma de suas filosofias preferidas o egocentrismo, ou seja, o ser humano como o centro de tudo. Uma pessoa egocêntrica pensa muito mais em si do que no próximo, e tem maior preocupação consigo mesma do que com a Igreja de Cristo.

Um cristão egocêntrico buscará a satisfação pessoal, e terá as suas próprias convicções como verdadeiros deuses, dos quais não deseja se desapegar. Para ele, é a igreja que deve servi-lo, e não ele à igreja.

O egocentrismo está intimamente ligado à soberba, e precisa ser quebrado, porque a Bíblia diz claramente que Deus resiste aos soberbos. E, nas palavras de Jesus, o remédio para isto é a negação de si mesmo.

Negar-se a si mesmo é reconhecer que o centro de tudo é Jesus, e que nós somos seus servos, recebemos dEle uma salvação que nem mesmo merecíamos, e não temos motivo para nos gabar de nada, pelo contrário, devemos ser gratos por Jesus ter nos amado como Ele amou e dado sua vida por nós.

Negar-se a si mesmo tem a ver com renúncia, e renúncia é algo que está bem fora de moda no mundo atual. Renunciar a convicções equivocadas, ao ego, ao desejo de sermos servidos, aos prazeres oferecidos pelo mundo que nos afastam de Jesus, à tentação de provarmos que somos melhores do que os outros, de que estamos certos e os outros estão errados.

Negar-se a si mesmo é enxergar o próximo como alguém que não está abaixo de nós, mas no mesmo nível de necessidade da graça de Deus, pois todos somos pecadores. É reconhecer que nós somos capazes de errar até mais do que o nosso próximo, e por isso não devemos condená-lo, mas amá-lo e perdoá-lo como gostaríamos que fosse feito conosco. É estar disposto a renunciar a muitas coisas que consideramos importantes, por amor a Jesus Cristo e ao Seu Reino.

Já o tomar a sua cruz não tem a ver com ter uma vida cheia de sofrimentos e doenças, ao contrário do que muitos pensam, mas é tomar sobre si a humilhação e a rejeição que Jesus teve que suportar e que Ele disse que seus discípulos também enfrentariam.

O mundo odeia Jesus e àqueles que O seguem. Portanto, ao professarmos nossa fé no Filho de Deus, devemos ter ciência de que o mundo nos odiará e nos rejeitará. Essa rejeição somente deixará de ocorrer se aceitarmos ter uma fé morna, que não causa impacto, pois é contaminada pela influência das filosofias mundanas, pelo relativismo e pelo liberalismo que vêm atacando a Igreja há tempos, avançando cada vez com maior velocidade e sutileza.

Seguir a Jesus está intimamente ligado com o negar-se a si mesmo e tomar a sua cruz, porque importa em caminhar nos passos de Jesus, buscando imitá-lo perante este mundo incrédulo.

Os Evangelhos nos retratam um pouco do quanto Jesus sofreu rejeição por parte do mundo, aí incluídos os religiosos da época, de forma que Ele acabou sendo morto porque seus ensinamentos colocavam em risco o poder e os privilégios daqueles que se habituaram a controlar as pessoas e receber toda a glória.

Seguir a Jesus exige capacidade de renúncia e coragem para enfrentar as oposições que fatalmente se levantarão. Convém lembrar do que Jesus disse e que está registrado em João 15.20:

“Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa.” (João 15:20)

Quando leio a passagem do Evangelho escrito por Mateus, que embasa esta reflexão, vem à minha memória as narrativas que vejo com frequência na página de internet da “Portas Abertas” (www.portasabertas.org.br), trazendo notícias dos cristãos que são perseguidos ao redor do mundo, principalmente na Ásia e na África, e pagam caro por sua fé em Jesus.

Vejo na vida daqueles irmãos a experiência prática do que Jesus falou aos seus discípulos quanto a negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo.

A notícia mais frequente que leio diz respeito a pessoas geralmente ligadas ao islamismo que, em dado momento, devido à ação de missionários ou ao testemunho de outros cristãos, acabam entregando sua vida a Jesus e, com isto, passam a experimentar uma reviravolta tremenda em sua existência.

Essas pessoas aprendem na prática o significado de renunciar a coisas que consideram importantes por amor a Cristo. E geralmente a primeira renúncia que se veem obrigadas a fazer diz respeito à família. Não porque odeiem os familiares, mas porque pais, irmãos e outros membros da família passam a tratá-los como infiéis, dirigindo contra eles ofensas, violência física e até mesmo ameaças de morte.

Então, diante do cenário que se estabelece, de total aversão por parte dos entes queridos, os cristãos acabam tendo que renunciar à convivência com seus familiares, mudando-se para outra casa na mesma localidade ou, em alguns casos, até mesmo para outras localidades.

Esses nossos irmãos mostram-se capazes de renunciar a prazeres, a posições sociais, à segurança, ao ego, por amor de Cristo. Passam por situações humilhantes, são desprezados, perseguidos, ofendidos, agredidos e até podem ser mortos, mas se mantêm fiéis a Jesus e fazem o possível para seguir o seu exemplo, amando as pessoas e buscando viver não para si mesmos, mas para a glória de Deus.

Disposição semelhante era vista nos primeiros cristãos, no início da Igreja de Cristo, quando os apóstolos anunciavam o Evangelho debaixo de intensa perseguição, e os discípulos de Jesus viviam de forma a impactar a sociedade, renunciando ao egoísmo, sujeitando-se à rejeição e imitando o Mestre Jesus.

No versículo 25 Jesus fala sobre tentar salvar a vida e perdê-la. Aqui podemos encontrar dois sentidos. O primeiro diz respeito ao aspecto literal das palavras do Mestre. Ele fala sobre tentar salvar a própria vida, fugindo das perseguições mediante uma fé morna e que não produz impacto, mas representa uma fé fingida de alguém que deseja ficar bem com o mundo, e que acabará experimentando a morte eterna, que é a separação de Deus. E por outro lado, fala daqueles que são capazes de dar sua própria vida pelo Evangelho, pois lhes está assegurada a vida eterna.

Muitos são os cristãos que deram sua vida pelo Evangelho, e foram mortos por homens impiedosos, sem jamais renunciar a fé em Jesus, pois aguardavam com confiança a nova vida prometida na eternidade com Cristo.

O outro sentido se refere a se apegar à velha vida, aquela que tínhamos antes de conhecermos Jesus, onde não precisávamos renunciar a nada, poderíamos ser o centro das atenções e viver de forma narcisista, sem nos preocuparmos em sermos rejeitados por causa de nossa fé e sem nos empenharmos em seguir os passos de Jesus.

Infelizmente há cristãos que tentam viver dessa forma. Proclamam-se servos de Jesus mas vivem como se não O conhecessem. Estes, conforme as palavras de Jesus, na verdade perdem a vida, porque jamais passaram pelo novo nascimento.

Por outro lado, os que perdem a vida por amor de Cristo vão achá-la. Estes são os que abandonam a velha vida e passam a viver com a consciência plena de que sua nova vida é Jesus Cristo, como afirmou o apóstolo Paulo:

“logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gálatas 2:20)

Trata-se das pessoas que passaram pelo novo nascimento e se tornaram novas criaturas, renunciando às paixões da carne para glorificar a Cristo por meio do seu viver. Essas pessoas têm a sua mente renovada pelo Espírito Santo e ao longo da caminhada vão lançando fora os medos, a inveja, o egoísmo, o egocentrismo, o espírito de discórdia, a mentira, a lascívia, etc., e vão se tornando cada vez mais parecidos com Jesus.

Estes perdem a vida velha, e ganham a vida eterna com Cristo.

Jesus complementa sua fala no versículo 26 dizendo “pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” (Mateus 16:26).

Isto porque as pessoas que são incapazes de se negaram a si mesmas, tomar a sua cruz e seguir a Jesus, acabam ocupando suas vidas com questões meramente mundanas e transitórias, abraçando o mundo e o que ele oferece. Mas embora ganhem o mundo, perdem sua alma, porque a amizade do mundo é inimizade contra Deus, conforme nos adverte Tiago:

“Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.” (Tiago 4:4)

Jesus deixa bem claro que o ser humano não tem nada a oferecer em troca de sua alma. Todas as riquezas que alguém consiga possuir neste mundo não valem nada aos olhos de Deus e de nada servem no momento do Julgamento.

No versículo 27 Jesus afirma que haverá um julgamento. Que Ele próprio virá com seus anjos e retribuirá a cada um conforme as suas obras. Aqui Jesus não está falando de obras como muitas pessoas entendem, no sentido de fazer caridade, dar esmolas, etc. As obras às quais Jesus se refere são justamente o negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir ao Mestre Jesus, renunciando ao mundo e seus prazeres para ganhar a Cristo.

Estes, conforme está prometido na Palavra, herdarão a vida eterna, porque confiaram em Cristo e se entregaram a Ele, procurando viver a fé em sua plenitude aqui na terra para que o nome de Deus fosse glorificado.

O julgamento acontecerá, isto é certo, e está assegurado que aqueles que preferiram abraçar o mundo e viver uma vida voltada para si mesmos vão perder a vida eterna com Deus, sendo lançados fora do Reino Celeste, onde experimentarão sofrimento que não terá fim.

 

CONCLUSÃO

É urgente buscarmos um avivamento da Igreja de Cristo nos dias atuais. A situação de mornidão em que a Igreja mergulhou é extremamente perigosa, e faz-se necessário que os cristãos voltem-se para a Palavra de Deus e a observem fielmente.

É tempo de abrirmos mão do comodismo que a modernidade nos oferece e vivermos um Evangelho autêntico e transformador, dando provas ao mundo por meio de vidas restauradas e comprometidas com os valores do Reino de Deus, ainda que isto implique em sermos rejeitados, caluniados e ofendidos.

Precisamos abrir mão do egocentrismo, renunciando a nós mesmos para que a Igreja de Cristo seja fortalecida e não venha a sucumbir diante das investidas de Satanás, que constantemente lança seus dardos inflamados contra os cristãos para tentar enfraquecê-los e abalar a Igreja.

É essencial que nos lembremos de que “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes.” (Efésios 6:12), e que, seguindo os passos de Jesus, consigamos rechaçar as investidas do Maligno contra o povo de Deus, mantendo-nos unidos em Cristo.

Voltemos ao Evangelho puro e simples de Jesus, resistindo às seduções deste mundo e de nossa carne, pois Jesus não espera de nós menos do que fé, fidelidade  e amor.

Que Jesus Cristo nos dê força para renunciarmos ao que tivermos que renunciar, para suportarmos a rejeição do mundo e para continuarmos a imitá-lo em tudo.

José Vicente

segunda-feira, 7 de março de 2022

TEMPO DE FAZER O BEM

 


Texto base: Marcos 3.1-10

Será que existe um tempo certo para fazermos o bem ao próximo? Será que nossa capacidade de fazer o bem deve ser limitada pelas circunstâncias e pelo pensamento das pessoas ao redor?

A passagem lida se encontra em um período em que Jesus teve alguns atritos com líderes religiosos judeus, pois Ele estava cumprindo a sua missão de abençoar as pessoas e lhes ensinar sobre o Reino de Deus, o que os líderes consideravam como uma ameaça à sua posição perante a comunidade israelita.

Em Marcos 2 vemos um episódio maravilhoso em que um paralítico é levado por quatro amigos até Jesus, e como não conseguiam entrar na casa, pois estava muito cheia, subiram ao telhado e foram descendo o paralítico até que chegasse a Jesus. O Mestre, então, admirado com a fé daqueles homens, disse ao paralítico que seus pecados estavam perdoados, e como os fariseus começaram a murmurar que somente Deus podia perdoar pecados, sendo aquilo uma blasfêmia, Jesus os repreendeu e promoveu a cura do paralítico diante de todos.

Na mesma seção, os fariseus criticam Jesus por comer junto com pecadores, quando Jesus responde que os doentes é que precisam de médicos, e que Ele viera para chamar pecadores, e não justos.

Depois os fariseus implicaram pelo fato de os discípulos de Jesus não jejuarem, e a seguir, criticaram os discípulos de Jesus por colherem espigas em dia de sábado.

Agora, Jesus estava na sinagoga, e lá também estavam os fariseus, observando-o atentamente para encontrar algo de que o pudessem acusar.

É interessante notar como pessoas religiosas, que conheciam a Lei de Deus, tinham a sua visão de tal modo deturpada que não conseguiam ver, nas obras de Jesus, a ação de Deus, mas enxergavam apenas motivos para fazerem oposição a Jesus.

Eles se sentiam ameaçados em sua posição de líderes religiosos, e temiam que as pessoas começassem a seguir os ensinamentos de Jesus, pois isto representaria o enfraquecimento daquela liderança corrompida.

Inicia-se, então, mais um momento de conflito espiritual que levaria aqueles homens a terem ainda mais ódio de Jesus, desejando matá-lo, em vez de glorificarem a Deus pelos milagres que estavam presenciando.

Da passagem podemos extrair inúmeras lições, mas vamos nos ater às seguintes:

 

 1)   Devemos fazer o bem em qualquer tempo (v. 4)

O dia de sábado era destinado ao descanso, e nenhum trabalho poderia ser realizado nesse dia. Deus concedeu o sábado para que o ser humano tivesse descanso e para que O adorasse, e com o passar do tempo os líderes religiosos judeus foram criando uma lista de atividades que não poderiam ser feitas em dia de sábado, de maneira que o aquilo que deveria ser uma bênção se tornou um fardo sobre os ombros das pessoas.

De forma geral, até mesmo o ato de curar alguém em dia de sábado era considerado como uma violação à Lei de Deus, levando esses líderes a se voltarem contra quem assim procedesse, com acusações de profanação do dia sagrado.

No texto que lemos, era um dia de sábado e Jesus estava na sinagoga, juntamente com muitos judeus, dentre eles líderes religiosos do grupo dos fariseus. E havia entre eles um homem que tinha uma mão atrofiada. Jesus chamou o homem para o centro e perguntou aos que se encontravam presentes se era lícito fazer o bem ou o mal no sábado, salvar a vida ou matar, mas ninguém lhe respondeu nada.

Então, Jesus curou o homem, e sua mão foi restaurada.

A pergunta que Jesus fez aos que estavam presentes era para que eles refletissem no fato de que o mal é feito em qualquer dia, em qualquer tempo, não conhecendo limites temporais. A morte também ocorre em qualquer momento, independentemente de ser sábado ou qualquer outro dia.

Desta forma, se tanto o mal como a morte poderiam se dar em qualquer dia, por que razão o bem não poderia ser feito em qualquer ocasião, mesmo que fosse em um sábado?

Jesus estava ensinando àqueles homens que não há tempo para fazer o bem, e que a observância meramente religiosa de um dia consagrado, como o sábado, além de não impedir que ocorresse o mal ou a morte, não poderia ser utilizado como pretexto para não fazer o bem a quem necessitasse.

O ensino de Jesus àquelas pessoas visava mostrar que Deus Pai está muito mais interessado em que se pratique o amor para com o próximo, atendendo às necessidades de quem sofre, do que com a observância legalista de regras religiosas, omitindo-se, porém, de socorrer a quem precisa de ajuda.

Todos nós que cremos em Jesus e nos tornamos seus discípulos temos o compromisso de imitá-lo em seus passos, e fazer o bem em qualquer tempo é um dos ensinos de Jesus a ser aprendido e observado por nós.

Não existe um tempo para fazermos o bem ao nosso próximo, pelo contrário, devemos sempre estar prontos e dispostos a demonstrar nosso amor e nossa solidariedade para com quem necessitar em todo o tempo.

Parece que os líderes religiosos judeus da época de Jesus teriam a capacidade de se omitir no socorro a alguém necessitado, caso isso ocorresse em sábado ou em ocasião em que eles estivessem prestando serviço religioso, mas a pergunta que Jesus lhes fez os deixou sem resposta, porque eles sabiam que o bem deve ser feito em todo o tempo.

Infelizmente os líderes religiosos judeus não haviam ainda compreendido a essência dos mandamentos de Deus, pois se limitavam a um culto mecânico a Deus, negligenciando o amor ao próximo.

Isto fica claro na passagem em que Jesus fala sobre o homem que foi assaltado e espancado, deixado à beira do caminho muito ferido, e tendo por ali passado um levita e um sacerdote, fizeram vistas grossas à sua situação, sendo ele socorrido justamente por um samaritano, que os judeus consideravam inferior e indigno (Lucas 10.30-37).

Na passagem de Lucas, é provável que tanto o sacerdote como o levita estivessem vindo do Templo, pois desciam de Jerusalém. Mas como sua religião era meramente formalista e legalista, eles não puseram em prática o amor que Deus requer que manifestemos para como o nosso próximo.

Paulo, apóstolo de Jesus, escreveu aos Tessalonicenses o seguinte:

“E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.” (2 Tessalonicenses 3:13)

Os discípulos de Jesus devem ser incansáveis na prática do bem, não esperando tempo certo, pois sempre é tempo de amar.

Fazer o bem é tão importante aos olhos de Deus, que Tiago foi levado a escrever a seguinte exortação:

“Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando.” (Tiago 4:17)

Jesus, que amava as pessoas de forma incondicional, sabia que não poderia se omitir de fazer o bem a uma pessoa necessitada. Esta não foi a primeira nem a última ocasião em que Jesus ajudou pessoas. Houve momento em que Jesus estava cansado, e mesmo assim abriu mão do repouso para poder aliviar o sofrimento de quem o procurava.

Infelizmente, nos dias atuais existem pessoas que só se dispõem a fazer o bem ao próximo quando isto lhes resulte em algum benefício. Assim, escolhem o momento de fazer o bem.

Todos os anos vemos pessoas se mobilizando para ajudar famílias carentes na época de Natal, incentivando outros a doarem brinquedos, roupas, alimentos e diversas coisas para que sejam distribuídas a crianças e muitas pessoas que passam falta de itens básicos.

O problema é que em boa parte das vezes essas ações acabam se limitando a esse período ou alguma outra época específica, como se apenas uma vez ao ano o próximo necessitasse de auxílio.

Nosso coração precisa ser tocado para demonstrar amor ao próximo por meio de atos de compaixão o tempo todo, porque Deus é bom conosco o tempo todo. Sempre que houver a necessidade por parte do nosso próximo, a disposição de fazer o bem, estando ao nosso alcance, deve nos conduzir à ação em seu favor, conforme está escrito em Provérbios:

“Quanto lhe for possível, não deixe de fazer o bem a quem dele precisa; não diga ao seu próximo: ‘Volte amanhã, e eu lhe darei algo’, se pode ajudá-lo hoje.” (Provérbios 3:27-28)

Assim, a nossa disposição deve ser a mesma de nosso Mestre Jesus, de fazer o bem em qualquer tempo, sem esperar situações especiais. Fazer o bem é demonstração prática do amor de Deus em nosso coração. É evidência de que realmente somos seguidores de Jesus e estamos buscando imitá-lo, aprendendo com seus ensinamentos e seu exemplo.

 

2)   A maldade alheia não pode impedir que façamos o bem (v.  2 e 6)

Naquele local, havia um homem necessitado, com a mão atrofiada, mas também ali se encontravam líderes religiosos judeus da seita dos fariseus, que já vinham criticando Jesus por suas ações e pelo modo de agir de seus discípulos.

Esses fariseus, conforme é narrado no versículo 2, “estavam observando a Jesus para ver se o curaria em dia de sábado, a fim de o acusarem”, ou seja, eles não estavam se importando com o problema do homem que tinha a mão atrofiada, antes pensavam apenas em uma forma de acusar Jesus de violar a Lei de Deus e desmoralizá-lo perante o povo que se aglomerava para segui-lo.

No coração desses homens não havia amor ao próximo, mas mera religiosidade legalista. E eles mantinham firme a convicção de que Jesus não poderia continuar a fazer os milagres que vinha fazendo, principalmente em dias de Sábado.

Eles eram estudiosos da Lei de Deus, mas não conseguiam compreender a essência do próprio Deus, que é o amor (1Jo 4.8, 16).

A religiosidade equivocada deles acabava por levá-los a serem maus e tentarem impedir que se fizesse o bem às pessoas. A visão que eles tinham de bem era muito deturpada. Eles eram egoístas e tinham sede de poder. Eram cheios de vaidade e de orgulho.

Jesus, porém, não se deixou intimidar pela maldade daqueles homens. Pelo contrário, Jesus os questionou quanto a fazer o bem ou o mal em dia de sábado. No Evangelho escrito por Mateus essa passagem é narrada no capítulo 12, e lá é dito que Jesus utilizou o exemplo da ovelha que cai em um buraco no sábado, e que certamente o dono faria um esforço para retirá-la. Então Jesus pergunta se um homem não vale mais do que uma ovelha.

Jesus escancara a hipocrisia daqueles líderes religiosos, pois certamente eles salvariam uma ovelha caída num buraco em dia de sábado, mas eram incapazes de fazer o bem ao seu semelhante nesse dia apenas por legalismo religioso.

E mesmo estando no meio de pessoas más, que queriam o seu mau, Jesus fez o bem ao homem da mão atrofiada, não deixando que a maldade alheia limitasse a sua demonstração de amor ao próximo.

Jesus não estava preocupado com o julgamento das pessoas, pois Ele sabia que, tendo a possibilidade de fazer o bem, não poderia se omitir apenas por causa da mesquinhez dos líderes religiosos que ali estavam.

Nós vivemos em um mundo onde o egoísmo é incentivado. Onde a dor do próximo é desprezada e quem procura fazer o bem muitas vezes é visto como tolo. Um mundo onde há época certa para fazer o bem, e onde olhares invejosos repousam sobre pessoas que procuram amar ao próximo como Jesus amou. Um mundo onde quem não faz o bem se levanta contra quem o faz e suscita oposição.

Infelizmente, muitas pessoas se omitem de fazer o bem ao próximo porque ficam preocupadas com o julgamento dos maus, dos egoístas, dos religiosos que não conhecem a Deus e que acham que tudo deve ser feito apenas da forma como eles acreditam ser a correta.

Necessitamos aprender com Jesus que a nossa disposição de fazer o bem não pode estar relacionada ao que os outros pensam, aos julgamentos de pessoas mesquinhas, mas deve ser um reflexo do amor de Cristo agindo em nós e por meio de nós para alcançar pessoas que precisam de auxílio e de amparo.

O povo de Deus deve ter a coragem de fazer o bem mesmo em meio a um mundo mau, porque não é vontade de Deus que nós tomemos a forma do mundo, mas que influenciemos esse mundo pela prática do amor e por uma forma de conduta diferente daquela que é ensinada pelo mundo.

Nem mesmo a maldade da pessoa necessitada pode nos impedir de lhe fazer o bem, pois assim é o ensino de Jesus:

“Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam.” (Lucas 6:27,28)

A maldade dos outros não pode nos impedir de fazer o bem, porque o nosso modelo de conduta não é o nosso próximo, mas o Mestre Jesus Cristo.

 

3)   Devemos fazer o bem a todos ( vv. 7-10)

O texto lido, em conjunto com os demais Evangelhos, mostra que Jesus não selecionava pessoas para fazer o bem, pelo contrário, Ele atendia prontamente a todos os que o procuravam, não importando se eram pessoas verdadeiramente interessadas no Reino de Deus ou apenas queriam o atendimento de suas necessidades imediatas.

Nos versículos 7 a 10 é dito que multidões de diversas localidades seguiam Jesus, sendo que no versículo 10 é narrado que “todos os que padeciam de qualquer enfermidade se arrojavam a ele para o tocar”.

Dentre essas pessoas obviamente havia aquelas que tinham a finalidade de conhecer o Messias e aprender mais sobre o Reino de Deus, mas certamente havia um número gigantesco de pessoas que apenas desejavam o benefício que poderia ser obtido com a cura de enfermidades ou atendimento de outras necessidades.

Com certeza nessas multidões havia pessoas de boa índole e pessoas más. Pessoas que observavam os mandamentos de Deus e outras que levavam uma vida torta. Havia pessoas de todo tipo e com variadas intenções.

Jesus, porém, fazia o bem a todos. Ele curava os enfermos, libertava os endemoninhados, consolava os aflitos, e não fazia acepção de pessoas. Jesus não selecionava aqueles a quem iria ajudar. Ele simplesmente agia e as abençoava.

Quando Jesus foi preso, um discípulo, que João afirmou ser Pedro (João 18.10), cortou a orelha do servo do sumo sacerdote, mas Jesus imediatamente restaurou-lhe a orelha (Lucas 22.50-51). Ou seja, Jesus retribuiu o mal que estava recebendo com o bem em favor de uma pessoa que servia a quem desejava a sua morte.

No mundo vigora o princípio de fazer o bem a quem nos faz o bem, ou a quem pode nos retribuir de alguma forma, ou, ainda, quando pudermos ter algum benefício com nossa ação.

O mundo ensina a sermos seletivos, escolhendo a dedo quem receberá a demonstração de nossa bondade. Assim, inimigos são os primeiros a serem colocados de fora dessa lista, porque merecem o pior. Pessoas com quem não simpatizamos também são excluídas da nossa lista de boas ações. Ficamos tentando sondar as intenções das pessoas e acabamos por não ajudá-las.

O ensino de Jesus vai na contramão do mundo. Todas as pessoas devem receber o bem de nossa parte, ainda que seja alguém que nos faz mal.

Observemos o que escreveu Paulo: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens;” (Romanos 12:17).

E Jesus foi muito claro ao dizer que devemos fazer o bem a todos porque Deus é bom para co todos:

“Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam. Se fizerdes o bem aos que vos fazem o bem, qual é a vossa recompensa? Até os pecadores fazem isso. E, se emprestais àqueles de quem esperais receber, qual é a vossa recompensa? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para receberem outro tanto. Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede misericordiosos, como também é misericordioso vosso Pai.” (Lucas 6:32-36)

Assim, qualquer pessoa que cruzar o nosso caminho pode ser beneficiada com nosso amor prático, da mesma forma que acontecia com quem se encontrava com Jesus, pois Ele não excluía pessoas no momento de lhes fazer o bem.

 

 CONCLUSÃO

A Palavra de Deus afirma claramente que nós somos chamados para seguir os passos de Jesus, amando como Ele amou, tendo a sua vida como exemplo de como deve se portar um filho de Deus neste mundo.

E Jesus, não apenas com suas palavras, mas principalmente por sua forma de agir, ensinou que todo o tempo é tempo de fazer o bem ao próximo, independentemente da maldade que nos rodeia, não fazendo acepção de pessoas.

A questão é que não conseguimos ser como Jesus com base em nossos esforços. Não é possível simplesmente dizermos: “a partir de hoje serei uma pessoa benigna e bondosa; vou fazer o bem ao meu próximo de maneira indistinta!”.

É o Espírito Santo de Deus que produz em nós a semelhança de Jesus Cristo. É o Espírito Santo que vai renovando nossa mente e retirando os velhos conceitos, velhos hábitos, as convicções erradas, e nos leva a um patamar em que cumprir a Palavra de Deus se torne algo natural (Gl. 5.22-23).

Que o Espírito Santo molde nosso caráter dia a dia e nos torne parecidos com o Mestre Jesus, de forma que as pessoas, ao terem contato conosco, possam provar um pouco da bondade de Deus por meio de nossos atos e nossas palavras de amor, consolo e edificação.

Toda honra e glória ao Deus Altíssimo, hoje e sempre. Amém.

José Vicente


quarta-feira, 24 de março de 2021

APRENDENDO COM A NEGAÇÃO DE PEDRO

 


Texto base: Marcos 14.27-31, 50 e 66-72

O Evangelista Marcos faz uma narrativa dos fatos que ocorreram nas 48 (quarenta e oito) horas que antecederam a morte de Jesus, sendo que no capítulo 14 encontramos (i) a unção feita por uma mulher em Betânia, (ii) a traição de Judas, e (iii) a negação de Pedro e demais discípulos. No capítulo 15 encontramos a narrativa do julgamento.

Sabemos que Pedro era um dos discípulos mais envolvidos com o ministério de Jesus, alguém que tinha maior proximidade com o Mestre, junto com João e Tiago, portanto era de se esperar que ele se mantivesse firme ao lado de Jesus durante aquele momento extremamente difícil, mas a realidade foi outra.

Quando pressionado, Pedro disse que não conhecia a Jesus, que não era seu discípulo e até chegou a ofender as pessoas que o indagavam.

Os outros discípulos simplesmente fugiram a abandonaram Jesus quando este foi preso e levado ao sumo sacerdote.

É natural que a narrativa apresentada provoque em nós sentimentos de reprovação à conduta de Pedro e dos demais discípulos. Afinal, entendemos que eles eram amigos de Jesus, contavam com Sua confiança, e no momento mais doloroso da vida do Mestre simplesmente desapareceram, abandonando Jesus nas mãos dos algozes.

O problema é que talvez não estejamos em condições de julgar e condenar aqueles homens por sua conduta, porque em seu lugar não sabemos se teríamos agido de outra forma.

O importante é que, ao lermos o relato do Evangelista Marcos, percebamos as lições que a Bíblia quer nos ensinar, pois, conforme escreveu Paulo na Segunda Carta a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Timóteo 3:16).

O que podemos aprender com o relato feito pelo Evangelista Marcos?

 

     1)    Aprendemos que somos mais fracos do que pensamos

Quando Jesus disse a seus discípulos que eles o abandonariam, Pedro rapidamente disse que ele jamais se escandalizaria com o Mestre, e após Jesus lhe dizer que ele O negaria por três vezes, Pedro afirmou que de maneira nenhuma negaria a Jesus, e que se fosse necessário daria sua vida pelo Senhor. E os demais discípulos confirmaram que tinham essa mesma disposição (v. 27-31).

Todavia, assim que Jesus foi preso, Marcos narra que “deixando-o, todos fugiram” (v. 50). E depois, quando Jesus foi levado ao Sumo Sacerdote, Pedro foi reconhecido por algumas pessoas como discípulo de Jesus, mas veementemente o negou.

Causa perplexidade ver um homem que, poucos instantes antes, havia jurado fidelidade a Jesus, subitamente, ao ser pressionado, não titubeou em negar que tivesse algum vínculo com Jesus ou que ao menos o conhecesse. E os demais discípulos, que juntamente com Pedro haviam afirmado que se fosse preciso morreriam por Jesus, também sumiram diante do perigo.

Antes de condenarmos Pedro e os demais discípulos por sua atitude, precisamos refletir quanto à lição que essa passagem nos ensina com relação a nós mesmos. A narrativa de Marcos não foi incluída na Bíblia com o intuito de envergonhar aqueles homens, mas para servir de alerta para todos nós, discípulos de Jesus, que juramos fidelidade ao Mestre e acreditamos ser capazes de dar nossa vida por Jesus.

Essa passagem vem nos ensinar que somos mais fracos do que pensamos!

Quando Pedro e os demais discípulos afirmaram que se manteriam fieis a Jesus e que seriam capazes de morrer pelo Mestre, eles estavam sendo sinceros, pois acreditavam realmente que teriam capacidade para assim proceder. Todavia, Jesus os conhecia profundamente, e sabia muito mais de suas fraquezas do que eles próprios. Jesus os advertiu do que iria acontecer, mas eles não aceitaram, pois estavam convictos de que teriam condições de cumprir o que diziam.

Diante, porém, de uma circunstância que trazia perigo e causava temor, eles se viram fragilizados e não tiveram coragem de acompanhar o Mestre, fugindo apressadamente e negando a Jesus.

Jesus não ficou surpreso, pois os conhecia bem demais, porém eles devem ter se sentido extremamente confusos diante de tal situação, pois mostraram covardia justo quando deveriam ter sido corajosos. Abandonaram um companheiro justo no momento em que Ele precisaria do apoio de seus amigos.

Ali, eles entenderam que não eram tão fortes como pensavam. Que toda aquela confiança que tinham em si mesmos era vazia e enganosa, porque no fundo eram fracos e medrosos, fariam qualquer coisa para salvar suas próprias vidas.

A exemplo de Pedro e seus companheiros, podemos cometer o erro de confiar demasiadamente em nossa capacidade, em nossa força, considerando-nos mais fortes do que realmente somos e ignorando nossas fraquezas.

Não podemos condenar Pedro e os demais justamente porque somos como eles. Temos a mesma natureza, a mesma tendência de achar que somos autossuficientes e que agiríamos diferente deles naquela situação, mas a verdade é que faríamos a mesma coisa.

Com a narrativa registrada em Marcos, Deus nos confronta para que olhemos para nós mesmos e reconheçamos o quão fracos somos, fugindo do autoengano. Ainda que sejamos sinceros em nossas declarações de amor e fidelidade a Deus, jamais podemos ignorar nossas fraquezas.

Quando mergulhamos no autoengano, crendo que somos muito fortes e fieis, tendemos a desenvolver algo que desagrada sobremaneira a Deus: o orgulho, a soberba.

Reconhecer nossas fraquezas é alimentar a humildade. Acreditar que somos fortes e inabaláveis pode conduzir à arrogância e à queda.

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.” (Provérbios 16:18)

Deus quer que nos mantenhamos humildes e dependentes dEle. Para isto, é essencial reconhecermos que não somos fortes como gostaríamos, mas que temos muitas fraquezas, pois assim receberemos o sustento do próprio Deus, que nos fortalecerá para vencermos os desafios da caminhada cristã.

Paulo assim escreveu: “Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.” (2 Coríntios 12:10)

Quando reconhecemos nossa fraqueza, acabamos nos esvaziando do sentimento de autossuficiência, assumimos nossa dependência de Deus e nos abrimos à ação do Espírito Santo em nós, de maneira que o Poder de Deus se manifestará em nossa fraqueza, assim como acontecia com Paulo.

Se, porém, cultivarmos a crença de que somos naturalmente fortes, ignorando nossas fragilidades, certamente o poder de Deus não se manifestará plenamente em nós e por meio de nós, e será necessário que sejamos submetidos a um tratamento da parte do Altíssimo para que nossa autossuficiência seja extirpada e, enfim, possamos ser usados como instrumentos da glória de Deus.

 

     2)    Aprendemos que é possível negar a Cristo não apenas com palavras, mas também com atitudes

Naquele fatídica noite, Pedro pronunciou palavras de negação. Claramente afirmou que não era discípulo de Cristo e que não o conhecia. Brigou com as pessoas que diziam que ele era um dos seguidores de Jesus.

Os demais discípulos, porém, não negaram Jesus com palavras, mas com sua atitude. O versículo 50 informa que todos o abandonaram assim que Ele foi preso. Eles podem não ter sido arguidos por outras pessoas como foi Pedro, mas negaram a Cristo quando agiram de forma oposta ao que haviam afirmado ao Mestre, abandonando-o e fugindo para não sofrerem consequências por serem seus discípulos.

É possível que nossas palavras sejam de amor e fidelidade a Jesus. Talvez nosso falar seja agradável e coerente com as Escrituras. Pode ser que nossas orações sejam feitas com fervor e fé. Mas a despeito de tudo isso, existe a possibilidade de que nossas atitudes se constituam em verdadeira negação de nossa fé e, consequentemente, de Cristo.

Quando Jesus estava ensinando aos seus seguidores, disse-lhes que deveriam imitar os escribas e fariseus em seus ensinamentos, mas não em suas práticas diárias:

“Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.” (Mateus 23:3)

De acordo com Jesus, os atos praticados por aqueles líderes religiosos eram egoístas, tinham a finalidade de se mostrar diante das pessoas e eram incompatíveis com o que ensinavam ao povo.

Por esta razão, precisamos estar sempre vigilantes, cuidando para que não venhamos a negar a Jesus com nossas atitudes, embora nossos lábios pronunciem palavras de louvor e adoração.

As pessoas ao nosso redor estão mais atentas ao que fazemos do que às nossas palavras. O nosso testemunho de vida fala mais alto do que as nossas declarações, porque se não houver coerência entre a fé professada e as atitudes do dia a dia, de certa forma estaremos negando que conhecemos a Cristo e que somos seus discípulos, embora tentemos dizer o contrário com nossos lábios.

Jesus disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (João 14.15)

O maior sinal de que amamos verdadeiramente a Jesus é guardar os seus mandamentos, ou seja, obedecer à Sua Palavra. A falta de coerência entre nossas declarações de fé e nossos atos é uma forma de negar a Cristo, porque estamos desobedecendo aos Seus mandamentos e agindo como se não o conhecêssemos.

 

     3)    Aprendemos que o arrependimento traz perdão e transformação

No versículo 72 o evangelista Marcos diz que após a terceira negação, tendo cantado o galo, Pedro se lembrou do que Jesus havia lhe falado e começou a chorar. Mateus e Lucas dizem que ele chorou amargamente (Mateus 26.75 e Lucas 22.62).

O choro de Pedro traduz o seu arrependimento, a dor que ele sentia por ter negado ao seu Mestre, a quem ele amava e por quem afirmara que daria sua vida. Ele havia caminhado por três anos ao lado de Jesus, aprendendo com Ele, compartilhando suas experiências. Havia visto maravilhas sendo feitas por Jesus e recebera, ele próprio, poder para operar sinais e anunciar o Evangelho. E, de repente, em um momento onde a vida de seu Mestre estava para ser ceifada, ele não conseguiu manter sua fidelidade e simplesmente negou ter qualquer envolvimento com Jesus.

Provavelmente a dor que Pedro sentiu foi muito grande quando percebeu que havia acabado de fazer aquilo que Jesus dissera que ele faria, embora ele tivesse afirmado que daria sua vida por Cristo. Quando é dito que ele chorou amargamente significa que a sua dor era enorme.

Entretanto, não se trata apenas de chorar pelo pecado cometido. A continuidade da história narrada nos Evangelhos e demais livros do Novo Testamento revela que tanto Pedro como os demais discípulos foram perdoados e transformados após a ressurreição de Jesus.

Aqueles homens nunca mais negaram a Cristo e à sua fé. Pelo contrário, eles foram perseguidos por serem servos de Jesus, e mesmo sendo presos, torturados e ameaçados continuaram a proclamar o Evangelho, anunciando que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Eles acabaram cumprindo o que haviam dito a Jesus, pois foram capazes de dar suas vidas pelo Mestre. Morreram por crerem em Jesus e por anunciarem-no como o Messias que era esperado, o Salvador em que está a vida eterna.

Sabemos que eles se arrependeram pelo pecado da negação pelo fato de nunca mais terem voltado a cometer o mesmo erro. Eles foram transformados e fortalecidos pelo perdão de Cristo e pelo Espírito Santo agindo em suas vidas.

Ao longo de nossas vidas podemos experimentar esse tipo de dor algumas vezes, quando magoamos pessoas a quem amamos, quando causamos dor a alguém, quando nossas atitudes ferem e provocam estremecimento de relacionamentos.

Assim também podemos sentir a dor que é causada pela prática do pecado, pela adoção de um estilo de vida que contraria a fé que professamos, mas é necessário que essa dor provoque arrependimento, ou seja, mudança de vida.

Da mesma forma que Pedro e os demais discípulos foram perdoados por seu pecado de negação, também nós podemos ser perdoados quando cometemos esse ou outros pecados e nos arrependemos verdadeiramente, abandonando a prática pecaminosa e buscando obedecer à Palavra de Deus.

Cabe ressaltar que não adianta chorar mas continuar a insistir na mesma prática pecaminosa. Isso não é arrependimento e não atrai o perdão de Deus. Pedro chorou amargamente, e após a ressurreição Jesus veio até ele, deixou evidente que o havia perdoado e o comissionou a ser Sua testemunha, da mesma forma que aconteceu com os demais discípulos que haviam fugido na noite em que Jesus foi preso.

O perdão de Jesus está disponível a quem se arrepende de seus pecados. Ele morreu na cruz justamente para que o perdão fosse derramado sobre nós e para que não passássemos a vida toda carregando o peso dos erros cometidos e do sentimento de culpa que isso gera.

Jesus restaurou Pedro, livrou-o de sua culpa e o transformou em um dos pilares da Igreja em seus primórdios. Jesus também restaurou os demais discípulos, de forma que o perdão os libertou da culpa e o Espírito Santo os capacitou a serem missionários que proclamaram o Evangelho em todo o mundo e deram suas vidas em prol do Senhor Jesus.

O mesmo perdão está disponível para nós, que erramos, pecamos e por vezes negamos a Cristo com nossas atitudes ou palavras. Jesus nos chama ao arrependimento para que sejamos libertados da culpa e possamos ser transformados pela ação do Espírito Santo, de maneira a sermos testemunhas fieis de Cristo neste mundo, onde é tão difícil viver de modo digno do Evangelho.

 

CONCLUSÃO

Nós não somos perfeitos e estamos sujeitos a errar, ainda que sejamos sinceros em nossas declarações de fé e amor a Jesus. Nossos erros, porém, não devem nos desestimular na caminhada cristã, não podem nos levar ao desânimo, porque Jesus nos estende Sua mão e concede Seu perdão quando nos arrependemos e nos dispomos a ser transformados.

Pedro fraquejou porque confiou em sua própria força, mas a partir do momento em que ele passou a viver firmado unicamente pela força que vem de Deus, ele se tornou um homem valoroso, um instrumento por meio do qual Jesus foi apresentado a milhares ou milhões de pessoas que também tiveram suas vidas transformadas.

Pedro e os demais discípulos superaram a tristeza do pecado da negação porque Jesus os perdoou. Eles puderam caminhar sem as redes de culpa que os enredavam. E pode ser que nossa caminhada esteja sendo muito lenta porque estamos arrastando redes de culpa.

Entreguemos a Jesus nossos medos, nossas fraquezas, nossos pecados. Busquemos o perdão que Ele nos dá e sujeitemo-nos à atuação do Espírito Santo para que nosso ser seja transformado e nós, a exemplo de Pedro e seus companheiros, consigamos ser instrumentos do Poder de Deus para salvação das pessoas que nos conhecem.

“a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria, dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz.” (Colossenses 1:10-12)

Que Deus nos fortaleça a cada dia. 

José Vicente.