quarta-feira, 24 de março de 2021

APRENDENDO COM A NEGAÇÃO DE PEDRO

 


Texto base: Marcos 14.27-31, 50 e 66-72

O Evangelista Marcos faz uma narrativa dos fatos que ocorreram nas 48 (quarenta e oito) horas que antecederam a morte de Jesus, sendo que no capítulo 14 encontramos (i) a unção feita por uma mulher em Betânia, (ii) a traição de Judas, e (iii) a negação de Pedro e demais discípulos. No capítulo 15 encontramos a narrativa do julgamento.

Sabemos que Pedro era um dos discípulos mais envolvidos com o ministério de Jesus, alguém que tinha maior proximidade com o Mestre, junto com João e Tiago, portanto era de se esperar que ele se mantivesse firme ao lado de Jesus durante aquele momento extremamente difícil, mas a realidade foi outra.

Quando pressionado, Pedro disse que não conhecia a Jesus, que não era seu discípulo e até chegou a ofender as pessoas que o indagavam.

Os outros discípulos simplesmente fugiram a abandonaram Jesus quando este foi preso e levado ao sumo sacerdote.

É natural que a narrativa apresentada provoque em nós sentimentos de reprovação à conduta de Pedro e dos demais discípulos. Afinal, entendemos que eles eram amigos de Jesus, contavam com Sua confiança, e no momento mais doloroso da vida do Mestre simplesmente desapareceram, abandonando Jesus nas mãos dos algozes.

O problema é que talvez não estejamos em condições de julgar e condenar aqueles homens por sua conduta, porque em seu lugar não sabemos se teríamos agido de outra forma.

O importante é que, ao lermos o relato do Evangelista Marcos, percebamos as lições que a Bíblia quer nos ensinar, pois, conforme escreveu Paulo na Segunda Carta a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2 Timóteo 3:16).

O que podemos aprender com o relato feito pelo Evangelista Marcos?

 

     1)    Aprendemos que somos mais fracos do que pensamos

Quando Jesus disse a seus discípulos que eles o abandonariam, Pedro rapidamente disse que ele jamais se escandalizaria com o Mestre, e após Jesus lhe dizer que ele O negaria por três vezes, Pedro afirmou que de maneira nenhuma negaria a Jesus, e que se fosse necessário daria sua vida pelo Senhor. E os demais discípulos confirmaram que tinham essa mesma disposição (v. 27-31).

Todavia, assim que Jesus foi preso, Marcos narra que “deixando-o, todos fugiram” (v. 50). E depois, quando Jesus foi levado ao Sumo Sacerdote, Pedro foi reconhecido por algumas pessoas como discípulo de Jesus, mas veementemente o negou.

Causa perplexidade ver um homem que, poucos instantes antes, havia jurado fidelidade a Jesus, subitamente, ao ser pressionado, não titubeou em negar que tivesse algum vínculo com Jesus ou que ao menos o conhecesse. E os demais discípulos, que juntamente com Pedro haviam afirmado que se fosse preciso morreriam por Jesus, também sumiram diante do perigo.

Antes de condenarmos Pedro e os demais discípulos por sua atitude, precisamos refletir quanto à lição que essa passagem nos ensina com relação a nós mesmos. A narrativa de Marcos não foi incluída na Bíblia com o intuito de envergonhar aqueles homens, mas para servir de alerta para todos nós, discípulos de Jesus, que juramos fidelidade ao Mestre e acreditamos ser capazes de dar nossa vida por Jesus.

Essa passagem vem nos ensinar que somos mais fracos do que pensamos!

Quando Pedro e os demais discípulos afirmaram que se manteriam fieis a Jesus e que seriam capazes de morrer pelo Mestre, eles estavam sendo sinceros, pois acreditavam realmente que teriam capacidade para assim proceder. Todavia, Jesus os conhecia profundamente, e sabia muito mais de suas fraquezas do que eles próprios. Jesus os advertiu do que iria acontecer, mas eles não aceitaram, pois estavam convictos de que teriam condições de cumprir o que diziam.

Diante, porém, de uma circunstância que trazia perigo e causava temor, eles se viram fragilizados e não tiveram coragem de acompanhar o Mestre, fugindo apressadamente e negando a Jesus.

Jesus não ficou surpreso, pois os conhecia bem demais, porém eles devem ter se sentido extremamente confusos diante de tal situação, pois mostraram covardia justo quando deveriam ter sido corajosos. Abandonaram um companheiro justo no momento em que Ele precisaria do apoio de seus amigos.

Ali, eles entenderam que não eram tão fortes como pensavam. Que toda aquela confiança que tinham em si mesmos era vazia e enganosa, porque no fundo eram fracos e medrosos, fariam qualquer coisa para salvar suas próprias vidas.

A exemplo de Pedro e seus companheiros, podemos cometer o erro de confiar demasiadamente em nossa capacidade, em nossa força, considerando-nos mais fortes do que realmente somos e ignorando nossas fraquezas.

Não podemos condenar Pedro e os demais justamente porque somos como eles. Temos a mesma natureza, a mesma tendência de achar que somos autossuficientes e que agiríamos diferente deles naquela situação, mas a verdade é que faríamos a mesma coisa.

Com a narrativa registrada em Marcos, Deus nos confronta para que olhemos para nós mesmos e reconheçamos o quão fracos somos, fugindo do autoengano. Ainda que sejamos sinceros em nossas declarações de amor e fidelidade a Deus, jamais podemos ignorar nossas fraquezas.

Quando mergulhamos no autoengano, crendo que somos muito fortes e fieis, tendemos a desenvolver algo que desagrada sobremaneira a Deus: o orgulho, a soberba.

Reconhecer nossas fraquezas é alimentar a humildade. Acreditar que somos fortes e inabaláveis pode conduzir à arrogância e à queda.

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.” (Provérbios 16:18)

Deus quer que nos mantenhamos humildes e dependentes dEle. Para isto, é essencial reconhecermos que não somos fortes como gostaríamos, mas que temos muitas fraquezas, pois assim receberemos o sustento do próprio Deus, que nos fortalecerá para vencermos os desafios da caminhada cristã.

Paulo assim escreveu: “Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.” (2 Coríntios 12:10)

Quando reconhecemos nossa fraqueza, acabamos nos esvaziando do sentimento de autossuficiência, assumimos nossa dependência de Deus e nos abrimos à ação do Espírito Santo em nós, de maneira que o Poder de Deus se manifestará em nossa fraqueza, assim como acontecia com Paulo.

Se, porém, cultivarmos a crença de que somos naturalmente fortes, ignorando nossas fragilidades, certamente o poder de Deus não se manifestará plenamente em nós e por meio de nós, e será necessário que sejamos submetidos a um tratamento da parte do Altíssimo para que nossa autossuficiência seja extirpada e, enfim, possamos ser usados como instrumentos da glória de Deus.

 

     2)    Aprendemos que é possível negar a Cristo não apenas com palavras, mas também com atitudes

Naquele fatídica noite, Pedro pronunciou palavras de negação. Claramente afirmou que não era discípulo de Cristo e que não o conhecia. Brigou com as pessoas que diziam que ele era um dos seguidores de Jesus.

Os demais discípulos, porém, não negaram Jesus com palavras, mas com sua atitude. O versículo 50 informa que todos o abandonaram assim que Ele foi preso. Eles podem não ter sido arguidos por outras pessoas como foi Pedro, mas negaram a Cristo quando agiram de forma oposta ao que haviam afirmado ao Mestre, abandonando-o e fugindo para não sofrerem consequências por serem seus discípulos.

É possível que nossas palavras sejam de amor e fidelidade a Jesus. Talvez nosso falar seja agradável e coerente com as Escrituras. Pode ser que nossas orações sejam feitas com fervor e fé. Mas a despeito de tudo isso, existe a possibilidade de que nossas atitudes se constituam em verdadeira negação de nossa fé e, consequentemente, de Cristo.

Quando Jesus estava ensinando aos seus seguidores, disse-lhes que deveriam imitar os escribas e fariseus em seus ensinamentos, mas não em suas práticas diárias:

“Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.” (Mateus 23:3)

De acordo com Jesus, os atos praticados por aqueles líderes religiosos eram egoístas, tinham a finalidade de se mostrar diante das pessoas e eram incompatíveis com o que ensinavam ao povo.

Por esta razão, precisamos estar sempre vigilantes, cuidando para que não venhamos a negar a Jesus com nossas atitudes, embora nossos lábios pronunciem palavras de louvor e adoração.

As pessoas ao nosso redor estão mais atentas ao que fazemos do que às nossas palavras. O nosso testemunho de vida fala mais alto do que as nossas declarações, porque se não houver coerência entre a fé professada e as atitudes do dia a dia, de certa forma estaremos negando que conhecemos a Cristo e que somos seus discípulos, embora tentemos dizer o contrário com nossos lábios.

Jesus disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (João 14.15)

O maior sinal de que amamos verdadeiramente a Jesus é guardar os seus mandamentos, ou seja, obedecer à Sua Palavra. A falta de coerência entre nossas declarações de fé e nossos atos é uma forma de negar a Cristo, porque estamos desobedecendo aos Seus mandamentos e agindo como se não o conhecêssemos.

 

     3)    Aprendemos que o arrependimento traz perdão e transformação

No versículo 72 o evangelista Marcos diz que após a terceira negação, tendo cantado o galo, Pedro se lembrou do que Jesus havia lhe falado e começou a chorar. Mateus e Lucas dizem que ele chorou amargamente (Mateus 26.75 e Lucas 22.62).

O choro de Pedro traduz o seu arrependimento, a dor que ele sentia por ter negado ao seu Mestre, a quem ele amava e por quem afirmara que daria sua vida. Ele havia caminhado por três anos ao lado de Jesus, aprendendo com Ele, compartilhando suas experiências. Havia visto maravilhas sendo feitas por Jesus e recebera, ele próprio, poder para operar sinais e anunciar o Evangelho. E, de repente, em um momento onde a vida de seu Mestre estava para ser ceifada, ele não conseguiu manter sua fidelidade e simplesmente negou ter qualquer envolvimento com Jesus.

Provavelmente a dor que Pedro sentiu foi muito grande quando percebeu que havia acabado de fazer aquilo que Jesus dissera que ele faria, embora ele tivesse afirmado que daria sua vida por Cristo. Quando é dito que ele chorou amargamente significa que a sua dor era enorme.

Entretanto, não se trata apenas de chorar pelo pecado cometido. A continuidade da história narrada nos Evangelhos e demais livros do Novo Testamento revela que tanto Pedro como os demais discípulos foram perdoados e transformados após a ressurreição de Jesus.

Aqueles homens nunca mais negaram a Cristo e à sua fé. Pelo contrário, eles foram perseguidos por serem servos de Jesus, e mesmo sendo presos, torturados e ameaçados continuaram a proclamar o Evangelho, anunciando que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Eles acabaram cumprindo o que haviam dito a Jesus, pois foram capazes de dar suas vidas pelo Mestre. Morreram por crerem em Jesus e por anunciarem-no como o Messias que era esperado, o Salvador em que está a vida eterna.

Sabemos que eles se arrependeram pelo pecado da negação pelo fato de nunca mais terem voltado a cometer o mesmo erro. Eles foram transformados e fortalecidos pelo perdão de Cristo e pelo Espírito Santo agindo em suas vidas.

Ao longo de nossas vidas podemos experimentar esse tipo de dor algumas vezes, quando magoamos pessoas a quem amamos, quando causamos dor a alguém, quando nossas atitudes ferem e provocam estremecimento de relacionamentos.

Assim também podemos sentir a dor que é causada pela prática do pecado, pela adoção de um estilo de vida que contraria a fé que professamos, mas é necessário que essa dor provoque arrependimento, ou seja, mudança de vida.

Da mesma forma que Pedro e os demais discípulos foram perdoados por seu pecado de negação, também nós podemos ser perdoados quando cometemos esse ou outros pecados e nos arrependemos verdadeiramente, abandonando a prática pecaminosa e buscando obedecer à Palavra de Deus.

Cabe ressaltar que não adianta chorar mas continuar a insistir na mesma prática pecaminosa. Isso não é arrependimento e não atrai o perdão de Deus. Pedro chorou amargamente, e após a ressurreição Jesus veio até ele, deixou evidente que o havia perdoado e o comissionou a ser Sua testemunha, da mesma forma que aconteceu com os demais discípulos que haviam fugido na noite em que Jesus foi preso.

O perdão de Jesus está disponível a quem se arrepende de seus pecados. Ele morreu na cruz justamente para que o perdão fosse derramado sobre nós e para que não passássemos a vida toda carregando o peso dos erros cometidos e do sentimento de culpa que isso gera.

Jesus restaurou Pedro, livrou-o de sua culpa e o transformou em um dos pilares da Igreja em seus primórdios. Jesus também restaurou os demais discípulos, de forma que o perdão os libertou da culpa e o Espírito Santo os capacitou a serem missionários que proclamaram o Evangelho em todo o mundo e deram suas vidas em prol do Senhor Jesus.

O mesmo perdão está disponível para nós, que erramos, pecamos e por vezes negamos a Cristo com nossas atitudes ou palavras. Jesus nos chama ao arrependimento para que sejamos libertados da culpa e possamos ser transformados pela ação do Espírito Santo, de maneira a sermos testemunhas fieis de Cristo neste mundo, onde é tão difícil viver de modo digno do Evangelho.

 

CONCLUSÃO

Nós não somos perfeitos e estamos sujeitos a errar, ainda que sejamos sinceros em nossas declarações de fé e amor a Jesus. Nossos erros, porém, não devem nos desestimular na caminhada cristã, não podem nos levar ao desânimo, porque Jesus nos estende Sua mão e concede Seu perdão quando nos arrependemos e nos dispomos a ser transformados.

Pedro fraquejou porque confiou em sua própria força, mas a partir do momento em que ele passou a viver firmado unicamente pela força que vem de Deus, ele se tornou um homem valoroso, um instrumento por meio do qual Jesus foi apresentado a milhares ou milhões de pessoas que também tiveram suas vidas transformadas.

Pedro e os demais discípulos superaram a tristeza do pecado da negação porque Jesus os perdoou. Eles puderam caminhar sem as redes de culpa que os enredavam. E pode ser que nossa caminhada esteja sendo muito lenta porque estamos arrastando redes de culpa.

Entreguemos a Jesus nossos medos, nossas fraquezas, nossos pecados. Busquemos o perdão que Ele nos dá e sujeitemo-nos à atuação do Espírito Santo para que nosso ser seja transformado e nós, a exemplo de Pedro e seus companheiros, consigamos ser instrumentos do Poder de Deus para salvação das pessoas que nos conhecem.

“a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus; sendo fortalecidos com todo o poder, segundo a força da sua glória, em toda a perseverança e longanimidade; com alegria, dando graças ao Pai, que vos fez idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz.” (Colossenses 1:10-12)

Que Deus nos fortaleça a cada dia. 

José Vicente.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

RESULTADOS DE UMA EXPERIÊNCIA PESSOAL COM DEUS



Texto base: Jó 42.1-6

 

INTRODUÇÃO

Jó era uma ótima pessoa, um crente fiel que recebeu elogios do próprio Deus, conforme vemos em Jó 1.8, que assim nos narra:

“Perguntou ainda o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal.” (Jó 1:8 )

Portanto, aquele homem se destacava em meio a sua geração por sua integridade, por sem alguém que temia a Deus e procurava andar em Seus caminhos, dando um testemunho de fidelidade perante todos.

Apesar de todas essas qualidades, Jó ainda não havia passado por uma experiência mais profunda com Deus, de forma que o conhecimento que tinha era fruto do que havia aprendido de forma impessoal, conforme ele próprio reconhece em Jó 42.5: “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem.”

A Bíblia na Nova Versão Internacional (NVI) traz esse texto da seguinte forma: “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram.” (Jó 42:5, NVI)

Obviamente a fala de Jó não significa que ele, literalmente, viu a pessoa de Deus, porque a Bíblia nos mostra que nenhum ser humano pode ver a Deus. Jó estava dizendo que, antes, o conhecimento que ele tinha de Deus era impessoal, fruto do que ele ouvira, mas agora ele havia tido uma experiência pessoal com o Altíssimo.

Muitos de nós temos um relacionamento com Deus que se baseia no que aprendemos na Bíblia, no que ouvimos, mas às vezes falta algo mais profundo, uma experiência pessoal que mexa com nossa estrutura de forma mais intensa, provocando um abalo e transformação.

Um encontro mais profundo com Deus pode acontecer em situações críticas, difíceis, como as tribulações que sobrevieram a Jó, ou quando buscamos sinceramente esse relacionamento em nosso dia a dia, e provoca alguns resultados que vemos no texto em análise.

     1)    PROVOCA O RECONHECIMENTO DA SOBERANIA DE DEUS (v. 2)

Jó era um homem que, obviamente, sabia que Deus estava acima dos seres humanos, mas ele ainda não tinha ideia do quão grande e poderoso era realmente o Altíssimo, e de como era impossível alcançar o entendimento de Deus.

Durante o período em que passou por severas tribulações, Jó havia apresentado diversos questionamentos, muitas indagações com relação ao que vinha acontecendo com ele, não compreendendo os desígnios de Deus e procurando encontrar justificativas para tudo aquilo.

Todavia, naquele turbilhão em que a vida de Jó havia se transformado, surgiu o momento em que Deus passou a responder e repreender tanto a Jó quanto a seus amigos, e essa experiência fez com que Jó compreendesse e reconhecesse que Deus é soberano e está no controle de tudo.

Em alguns momentos, enquanto fazia suas indagações e seus lamentos, Jó chegou a pensar que talvez Deus não estivesse vendo o seu sofrimento, mas Deus deixou claro que nada escapa à sua visão, Ele é onisciente, onipresente e onipotente.

Jó também achou que Deus não estava sendo justo com ele ao permitir que tanto sofrimento se abatesse sobre sua vida.

Porém, Jó entendeu que ninguém está acima de Deus, e que Ele não é limitado por ninguém. Descobriu que, uma vez que Deus tenha estabelecido algum plano, nada nem ninguém pode frustrá-lo. Jó compreendeu que cada palavra dita pelo ser humano é do conhecimento de Deus, e que nada fica encoberto aos olhos do Altíssimo. Que por pior que pareça a situação, Deus permanece no controle, e tudo acontece com a Sua permissão e com algum propósito. Que Deus não deve nada ao ser humano, e que pela fé é necessário aceitar os desígnios do Altíssimo e esperar nEle.

O ser humano é naturalmente questionador, e quando sobrevêm situações muito difíceis, que trazem sofrimentos, costuma questionar o próprio Deus, achar que está havendo alguma injustiça, que não merece passar por aquilo, que talvez Deus não esteja vendo o que está acontecendo, etc.

Paulo, escrevendo aos Romanos, deixou claro que o ser humano não tem condições de questionar a Deus:

“Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus? "Acaso aquilo que é formado pode dizer ao que o formou: ‘Por que me fizeste assim? ’ " (Rm 9:20, NVI)

Entretanto, o reconhecimento da soberania de Deus leva a deixar de lado os questionamentos, pois há a certeza de que Deus age em todas as circunstâncias e tem controle sobre tudo.

Paulo, apóstolo vocacionado por Jesus, passou por experiências bastante aflitivas, teve sofrimentos intensos, mas cada experiência dessas, em vez de afastá-lo de Deus e enfraquecer sua fé contribuiu para que ele crescesse e descansasse na soberania de Deus, visto que ele tinha a certeza de que nada foge ao controle do Altíssimo, e que em tudo Deus trabalho em prol de Seus filhos, conforme se vê em Romanos 8:28, que assim diz:

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Rm 8:28, ARA)

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” (Rm 8:28, NVI)

Deus é soberano e não necessita de nosso conselho, pois não temos nada a ensinar ao Altíssimo, pelo contrário, temos muito a aprender.

 

      2)    LEVA AO ESVAZIAMENTO DE SI MESMO (v. 3)

Quando Jó questionava Deus por sua situação ele se considerava sabedor de algo. Achava que seu conhecimento era suficiente para tentar entender ou explicar os desígnios de Deus.

Quando, porém, Jó ouviu a voz de Deus, ele se deu conta de que não era nada diante do Altíssimo, e que não podia nutrir nenhum sentimento de orgulho. Jó reconheceu que seu conhecimento era nada, e que ele não teria condições de debater com Deus ou questioná-lo.

Jó reconheceu sua ignorância, sua pequenez, sua ousadia, e adotou uma postura humilde, esvaziando-se de si mesmo para dar a Deus a glória que lhe é devida.

Durante nossa caminhada cristã precisamos ser vigilantes para que não ocorra de nos tornarmos pretensiosos, arrogantes, achando que temos muito conhecimento, que somos muito importantes. Por vezes o conhecimento que achamos que temos nos faz sentir superiores aos demais. Isso também ocorre com relação ao exercício de cargos, funções, pelo nível intelectual, profissão, situação financeira, etc., e pode causar a ilusão de superioridade quanto às demais pessoas.

Todavia, a humildade é um dos pilares da vida cristã, e se não a cultivamos devemos começar a fazê-lo o quanto antes, pois não temos motivos para nos vangloriarmos e nos julgarmos mais importantes do que realmente somos.

Jesus faz uma chamada a seus discípulos para o cultivo da humildade quando diz:

“Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim, pois sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas almas.” (Mt 11:29, NVI)

O Mestre Jesus nos deixou o maior exemplo de esvaziamento de si mesmo, para que nós possamos imitá-lo, conforme Paulo escreve na Carta aos Filipenses:

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (Fp 2:5-8, ARA)

Jesus era igual ao Pai em sua divindade e poder, mas isso não fez com que Ele buscasse glória pessoal ou quisesse algum privilégio, pelo contrário, Ele se esvaziou e demonstrou humildade para nos mostrar que, se o Filho de Deus age com humildade, não há nenhuma razão para que nós, meros seres mortais, alimentemos uma visão em que damos a nós mesmos um valor superior ao que realmente temos.

Nosso país tem mais de duzentos milhões de habitantes. O que um indivíduo representa perto desse número? O planeta tem mais de sete bilhões de pessoas vivendo nele. O que sou eu diante de tão enorme quantidade de pessoas? Um pequeno pontinho em meio a uma multidão! A ciência diz que provavelmente existem dois trilhões de galáxias no universo, e que o número de estrelas é superior à quantidade de grãos de areia que há em nosso planeta. Olhando para nós, o que somos diante de tanta grandeza?

Agora, se o universo é tão gigantesco a ponto de nem se saber a sua extensão, que dizer dAquele que o criou? Quão grande e poderoso é o Criador? E quem somos nós perante o Criador?

Quando contemplamos a grandeza de Deus e de Sua criação, percebemos o quão pequenos somos e compreendemos que nosso conhecimento, perto de Deus, é absolutamente nada.

 

      3)    PROVOCA ARREPENDIMENTO (v. 6)

Quando Jó contemplou a Deus em meio à sua aflição e ouviu o que Deus lhe dizia, ele concluiu que era um pecador diante de um Deus Santo e Perfeito, o que o levou a se arrepender de ter tentado argumentar com o Altíssimo e de ter feito questionamentos.

As experiências que Deus nos permite ter com Ele, sejam por tribulações ou por nossa própria busca, devem nos levar ao arrependimento e ao quebrantamento, porque constatamos o quanto somos pecadores, cheios de defeitos, limitados em nossa capacidade de entendimento.

Arrependimento é algo pouco pregado hoje em dia, porque envolve o esvaziar-se de si mesmo, abrir mão de convicções contrárias à Palavra, reconhecer que não somos bons como pensamos nem temos qualquer qualidade que nos garanta algum privilégio diante de Deus em relação às outras pessoas.

O arrependimento é a declaração de que Deus está certo, de que Ele tem razão e nós estamos equivocados. É a declaração de que precisamos de Deus, pois sem Ele não temos condições de fazer absolutamente nada.

Arrependimento é o ato ao qual somos chamados pelo Evangelho e é essencial a quem deseja caminhar com Cristo. Esse era o cerne da pregação de João Batista:

“Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus.” (Mateus 3:1,2, ARA)

Pedro também, a exemplo dos demais apóstolos, pregou a mensagem do arrependimento:

“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (Atos 3:19, ARA)

E o próprio Jesus pregou o arrependimento:

“Depois de João ter sido preso, foi Jesus para a Galileia, pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.” (Marcos 1:14,15, ARA)

Portanto, o arrependimento é uma das marcas de quem realmente teve um encontro com Deus, uma experiência mais profunda e transformadora, por meio de Seu Filho Jesus Cristo.

 

CONCLUSÃO

Todo aquele que se declara cristão mas que ainda nutre em seu coração questionamentos sobre Deus e seus desígnios, dúvidas quanto ao poder de Deus e à sua soberania, sentimentos de soberba, arrogância, ou que não experimentou nem experimenta o arrependimento por suas obras que desagradam a Deus, provavelmente ainda não teve uma experiência real e profunda com o Altíssimo.

O encontro com Deus, por meio de Jesus Cristo, deve trazer transformações em nossa vida, em nossa mente, em nossa perspectiva, de maneira que não vamos nutrir quanto a nós mesmos uma visão equivocada, achando que somos deveras mais importantes do que outras pessoas, mas antes, perceberemos o quanto somos pequenos e carecedores da misericórdia de Deus.

Que o Altíssimo nos permita ter experiências muito mais profundas com Ele e se revele a nós por meio de Seu Filho, Jesus Cristo, de maneira que sejamos tocados no íntimo de nosso ser e nada seja mantido no lugar, mas que ocorra uma transformação completa em nós, para que sejamos verdadeiros imitadores de Cristo.

José Vicente

06.02.2021 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

PREPARADOS PARA O NOVO DE DEUS


 Texto base: Êxodo 3.1-12

 

Moisés nasceu no Egito e era filho de pais hebreus, mas ainda criança foi exposto a uma mudança de vida, pois saiu do seio de sua família e foi criado pela filha do Faraó como se fosse seu próprio filho. Ele viveu por muitos anos como príncipe no Egito, recebeu uma educação primorosa e tinha muitos privilégios.

Mas a vida de Moisés mudou novamente quando, em certa ocasião, ele viu um feitor egípcio ferindo a um hebreu e não suportou aquela injustiça, vindo a matar o agressor e esconder seu corpo na areia. Logo ele foi descoberto e o Faraó ordenou a sua morte, então ele fugiu para o deserto.

Foi uma mudança radical. Moisés passou de príncipe do Egito a foragido vivendo no deserto. Porém ele acabou encontrando Jetro, casou-se com sua filha, Zípora, e passou a cuidar dos rebanhos do sogro. Assim ele experimentou uma nova fase em sua vida.

Tudo estava tranquilo, Moisés apascentava os rebanhos no deserto, quando uma nova mudança veio sobre sua vida. Certo dia, Deus apareceu para ele em uma sarça ardente que não se consumia, e a partir dali a vida de Moisés sofreu uma guinada mais uma vez. De pastor de rebanhos ele passou à condição de libertador e líder de uma nação inteira que pertencia a Deus.

A exemplo de Moisés, nós também passamos por mudanças em nossas vidas de tempos em tempos. Isto porque nós servimos a um Deus de novidades, que pretende ver Seus filhos crescendo e se tornando melhores a cada dia, como verdadeiros instrumentos para glorificar o nome do Altíssimo.

A Palavra nos diz que quem está em Cristo é nova criatura e que tudo se faz novo:

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” (2 Coríntios 5:17 )

Portanto, quando entregamos nossa vida a Cristo passamos pela maior mudança que poderíamos experimentar, pois Cristo nos faz novas criaturas, apagando nossos erros passados e nos concedendo uma vida nova, onde tudo deve ser diferente.

O propósito de Deus é que diariamente sejamos aperfeiçoados e preparados para coisas novas que Ele tem reservado para nós.

Moisés passou por várias mudanças ao longo de sua vida, desde sua adoção pela filha de Faraó até a chegada nas proximidades de Canaã.

Portanto, é necessário estarmos preparados para o novo de Deus, pois a qualquer momento o Altíssimo pode nos surpreender com mudanças em nossas vidas.

     1)    Não se apegue a objeções, mas confie em Deus

Um dos maiores medos que o ser humano possui é com relação a mudanças. Tudo o que é novo, desconhecido, que envolve sair da zona de conforto, causa medo e nos leva a desejar permanecer no estágio em que estamos.

É a notícia de que haverá mudança na direção da empresa em que trabalhamos, trazendo o medo de não conseguirmos nos adaptar às novas exigências e sermos demitidos. Ou então a necessidade de mudar de cidade, deixando-nos com receio de não conseguirmos fazer novos amigos, de não termos a mesma segurança que encontramos na cidade em que vivemos há vários anos, de não encontrarmos uma igreja bíblica para congregarmos, etc. Ainda, pode ser o medo causado por termos sido escolhidos para uma nova função na igreja.

Enfim, todo tipo de mudança provoca medo porque envolve encarar coisas e situações que não conhecemos, que são novidades para nós, e o novo dá medo, pois preferimos a zona de segurança que encontramos em nossa rotina.

Moisés não era diferente de nós e quando Deus anunciou mais uma mudança em sua vida, ele simplesmente foi tomado pelo medo e começou a apresentar objeções, buscando, com isto, convencer Deus de que ele não era a pessoa apropriada para aquela missão, e, assim, poderia voltar à sua rotina de pastor de rebanhos, sem maiores riscos. Deus queria fazer algo novo na vida de Moisés mas ele não estava preparado ainda.

Moisés apresentou cinco objeções: (i) ele não era ninguém importante para se apresentar diante do Faraó e tirar os hebreus do Egito; (ii) não sabia o nome de Deus para falar aos hebreus; (iii) os hebreus e egípcios não acreditariam nele; (iv) ele não era eloquente para falar aos hebreus e egípcios e (v) não era a pessoa apropriada para aquela missão.

Quanto à primeira objeção, Deus a resolveu fazendo uma promessa gloriosa: “Eu serei contigo” (Ex. 3:12). A segunda objeção foi solucionada quando Deus declarou o nome que Moisés deveria pronunciar diante do povo (Ex. 3:14). A terceira objeção foi resolvida com sinais que Deus faria por meio de Moisés diante do povo (Ex. 4:1-9). A quarta objeção foi tratada por Deus com a promessa: “eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar” (Ex. 4:12). E na quinta objeção a Bíblia diz que Deus se irou contra Moisés, e lhe disse que Arão seria seu auxiliar (Ex. 4:14-16).

Na verdade, a primeira promessa feita por Deus “Eu serei contigo” (Ex. 3:12) já deveria ser suficiente para que Moisés abandonasse o medo e encarasse a mudança que estava para acontecer em sua vida, mas ele continuou a apresentar objeções, que foram derrubadas uma a uma por Deus.

Quando Deus quer fazer algo novo em nossa vida Ele não aceita nossas objeções, porque os propósitos dEle nunca dependem de nossa capacidade ou força, mas estão alicerçados apenas no Seu poder e na Sua vontade.

Não é espiritualmente saudável nos apegarmos às objeções, mas devemos confiar que Deus é conosco e nos capacita para os novos desafios. Afinal, se Ele está permitindo que passemos por mudanças, certamente Ele caminhará conosco durante todo o percurso que faremos.

É interessante colocar diante de Deus nossos medos, mas não como pretextos para tentarmos fugir das coisas novas que Deus está trazendo para nossa vida, e, sim, como reconhecimento de que não somos capazes de fazer nada sozinhos, porém nos colocamos à disposição para que o Altíssimo opere a Sua vontade em nós.

Confessemos a Deus os medos que nos afligem, mas confiemos na promessa que Ele fez: “Eu serei contigo”.

Portanto, se queremos estar preparados para o novo de Deus, devemos abandonar as objeções e confiar que Deus sempre estará conosco. Essa promessa foi repetida por Jesus quando disse: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mateus 28:20)

Diga a Deus: “apesar do medo, estou à Sua disposição para fazer a Sua vontade, porque sei que o Senhor está comigo e jamais me abandonará”.

 

     2)    Precisamos ser tratados por Deus

Quando Deus, da sarça ardente, falou com Moisés, este respondeu: “eis-me aqui” (Ex. 3.4). Mas assim que Deus revelou a missão que tinha para Moisés, ele mostrou que não estava preparado para o novo de Deus, porque passou a apresentar objeções com a finalidade de se esquivar daquela mudança.

Durante toda a conversa Deus foi tratando Moisés para que ele abandonasse o medo e encarasse com fé a novidade que estava se colocando diante dele.

Quando Moisés disse: “quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?” (Ex. 3.11), ele estava certo em reconhecer que não era ninguém e não tinha poder algum, mas estava errado em achar que Deus estava lhe confiando aquela missão com base no seu valor.

A resposta de Deus deixou claro que o êxito da missão não dependia das qualidades de Moisés, e que ele apenas precisaria obedecer ao SENHOR, pois Ele é que faria tudo quanto fosse necessário para a libertação dos hebreus. Moisés seria um emissário de Deus, assim como nós fomos feitos embaixadores de Cristo (2Cor 5:20).

Deus fez Moisés parar de olhar para si mesmo e voltar seus olhos para o Altíssimo, que é exatamente o que devemos fazer também. Não nos concentremos em nós mesmos, nas nossas fraquezas ou qualidades, mas fixemos nossos olhos em Deus, que é poderoso para fazer mais do que imaginamos.

Ao responder à segunda objeção de Moisés, Deus diz o Seu nome, pelo qual Moisés deveria apresentá-lo ao povo. Aqui Deus estava tratando com Moisés na questão do relacionamento. Moisés precisava conhecer mais a Deus, e ali isso estava acontecendo.

Nós também precisamos saber quem é Deus para que possamos nos relacionar com Ele de maneira mais profunda e apresentá-lo a outras pessoas. Quando nosso relacionamento com Deus é superficial, não O conhecemos e não temos condições de agir em Seu nome, de maneira que falharemos em nossa missão.

Moisés ainda alegou que as pessoas não acreditariam nele, mas Deus disse que elas veriam sinais que as convenceriam. Sinais que viriam do próprio Deus.

Da mesma forma, nós também precisamos manifestar em nossa vida sinais que levem as pessoas a saberem que tivemos um encontro com Deus e somos Seus embaixadores. O maior sinal é a manifestação do fruto do Espírito, descrito em Gálatas 5:22-23 (amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio). Mas para isso Deus precisa trabalhar nosso caráter, nossa mente, nosso ser por inteiro.

E também devemos nos dispor a ser instrumentos para manifestação dos sinais que Deus desejar fazer, pois Ele pode querer nos usar para demonstrar o Seu poder e se revelar às pessoas.

A quarta objeção se refere à falta de eloquência, mas Deus a rebate mostrando a Moisés que ele apenas precisaria caminhar com fé e obediência, e que da mesma forma que Deus o estava enviando para falar ao Faraó, o mesmo Deus colocaria na boca dele as palavras certas.

Jesus fez uma promessa muito parecida aos seus discípulos: “por minha causa sereis levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios. E, quando vos entregarem, não cuideis em como ou o que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será concedido o que haveis de dizer, visto que não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós.” (Mateus 10:18-20)

E quando Moisés quis escapar dizendo que não era a pessoa apropriada, que Deus deveria enviar outro melhor, Deus mostrou que ele não poderia fugir da responsabilidade que lhe era imposta, e que ele não estaria sozinho, mas contaria com seu irmão para auxiliá-lo na missão.

Além disto, Deus estava deixando claro que Ele não comete erros quando escolhe alguém para uma missão. Afinal, a afirmação de Moisés, de que ele não era a pessoa certa, colocava em dúvida a escolha de Deus. Mas Deus não erra, e se Ele escolhe uma pessoa, certamente Ele conduzirá tudo até o final.

Assim também nós jamais devemos tentar fugir quando Deus tenciona fazer coisas novas em nossa vida e por meio de nós, mas cumpre-nos reconhecer a nossa responsabilidade perante Deus e o próximo, sabendo que o Senhor nos concedeu muitos irmãos que podem nos apoiar e auxiliar em nossa caminhada, e que Ele próprio está conosco para nos orientar e capacitar.

Em todas as respostas que Deus deu a Moisés Ele deixou claro que o cumprimento daquela missão não dependia da capacidade do próprio Moisés, mas Deus ia suprir tudo o que era necessário para que ele conseguisse fazer tudo quanto lhe fora ordenado. Deus tratou com Moisés para que ele estivesse pronto para o novo de Deus.

Igualmente, se queremos estar prontos para o novo de Deus, devemos nos submeter ao tratamento de Deus, (i) parar de olhar para nós e voltarmos os olhos para Deus, (ii) estreitar nosso relacionamento com o Pai, (iii) buscar a manifestação do fruto do Espírito e demais sinais que mostrem que tivemos um encontro com Deus, (iv) caminhar com fé e obediência, (v) assumir nossa responsabilidade e ter a convicção de que Deus não comete erros, e de que não estamos sozinhos, mas Deus nos concede companheiros de jornada.

 

CONCLUSÃO

Servir a um Deus de novidades implica em saber que durante toda a nossa vida passaremos por períodos em que Deus fará coisas novas em nós e por meio de nós. Precisamos estar preparados para o novo de Deus. Mudanças trazem crescimento, e Deus quer que desenvolvamos nossa santidade e nosso conhecimento dEle a cada dia.

Disponha-se a ser instrumento nas mãos de Deus e lance fora o medo, pois novos tempos virão e Deus nos quer firmes com Ele.

José Vicente

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Imitadores de Cristo I - Humildade



Texto base: João 13.12-17

Quando lemos a Bíblia constatamos que um dos objetivos de Deus ao nos escolher e chamar é o de que sejamos cada dia mais parecidos com Jesus Cristo. Em Romanos 8.29 vemos que os chamados por Deus são predestinados a serem conformes à imagem de Jesus:

“Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Romanos 8:29)

O próprio Jesus afirmou que os seus discípulos deveriam procurar imitá-lo, conforme vemos em Mateus 10.24-25:

“Não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor. Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?” Mateus 10:24,25

E João, em sua primeira carta, assim disse:

“Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele: aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou.” (1João 2.5-6)

Paulo nos exorta a sermos imitadores de Cristo, assim como ele próprio era (ICor 11.1).

Concluímos, portanto, que se realmente somos discípulos de Jesus, imitar o Mestre é algo que se espera de nós, e hoje, pelo que vemos na realidade em que estamos inseridos, percebemos que o mundo necessita ainda mais de imitadores de Cristo para que haja alguma transformação.

Uma vez que cabe a nós imitarmos o Mestre Jesus, vamos destacar uma das principais virtudes demonstradas por Ele e que, na verdade, se constitui em uma das colunas da vida cristã: a humildade.

Com efeito, a humildade é um requisito essencial para quem deseja ter uma vida coerente com os ensinamentos de Jesus e efetivamente quer ser um agente de transformação neste mundo, levando outras pessoas a conhecerem mais sobre Jesus e o Reino de Deus.

Em toda a Bíblia vamos encontrar exortações para que cultivemos a humildade, pois ela é agradável a Deus, cabendo-nos evitar a soberba, que além de demonstrar falta de sabedoria ainda está sujeita a severa repreensão da parte de Deus.

“Em vindo a soberba, sobrevém a desonra, mas com os humildes está a sabedoria.” (Pv. 11.2)
“A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra.” (Pv. 29.23)
“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda.” (Pv. 16.18)
“Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.” (Tiago 4.6)

A humildade é essencial para que reconheçamos nossos erros, nossos pecados, e peçamos perdão a Deus. O soberbo não consegue olhar para si mesmo e admitir que possa ter errado ou que necessite de perdão.

O soberbo tende a ser autosuficiente, confiando muito em si mesmo, nas suas capacidades ou posses materiais, enquanto o de coração humilde consegue se colocar na dependência de Deus, pois não faz uma ideia errada de sua pessoa.

O soberbo não aceita repreensão, justamente por não admitir que possa errar. Ele acha que sempre está certo e os outros é que estão errados. Com isto, ele demonstra falta de sabedoria, enquanto o humilde não apenas aceita a repreensão como é edificado por ela, buscando mudar aquilo que for necessário.

O soberbo acredita que sua religiosidade é suficiente para torná-lo aceitável diante de Deus, a exemplo do fariseu da parábola contada por Jesus, que orava de si para si mesmo e falava de suas virtudes, que, na sua ótica, o tornavam superior e mais santo, enquanto o publicano, com humildade, reconhecia sua condição de pecador necessitado da graça de Deus. Jesus disse que “todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lucas 18.9-14).

Certamente, uma pessoa soberba não é uma boa companhia, e sua presença acaba deixando o ambiente bastante pesado, pois seu semblante reflete seu orgulho.

No texto base vemos que Jesus nos dá um claro exemplo de humildade, além de nos exortar a fazer o mesmo. Jesus estava ceando com seus discípulos, e em dado momento pegou uma bacia e uma toalha e passou a lavar os pés de todos eles, como se fosse um serviçal.

Cumpre lembrar que estamos falando do Filho de Deus, que tem todo o poder e para quem nada é impossível. Aquele que demonstrou ter domínio sobre os elementos deste mundo e do mundo espiritual.

Olhando para Jesus, podemos destacar pelo menos três formas de exercitar a humildade e sermos aperfeiçoados no amor.

      1)      Servir ao próximo
Jesus Cristo, ao lavar os pés de seus discípulos, estava fazendo algo que era uma incumbência de escravos. Era costume naquela sociedade que os servos mais inferiores de uma casa (escravos) realizassem a lavagem dos pés dos hóspedes. Mas Jesus, que obviamente era superior a qualquer pessoa ali presente, não teve nenhum problema em agir como um servo.

Aliás, durante todo o seu ministério Jesus se dedicou a servir às pessoas. Ele mesmo disse:

“Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mateus 20.26-28)

Nosso Mestre procurou servir às pessoas de diversas formas. Ele as ouvia, ensinava, curava, libertava, alimentava física e espiritualmente, e muitas foram as oportunidades em que abriu mão de descansar para poder atender a pessoas necessitadas.

Ao entregar sua vida na cruz Jesus estava nos servindo, pois esse sacrifício tornou possível o nosso acesso à vida eterna, concedendo-nos remissão dos pecados e salvação. A sua ressurreição selou nossa salvação. E mesmo após ter voltado para junto do Pai, Jesus continua nos servindo, pois Ele nos dá vida, saúde, proteção, ouve nossas orações, intercede por nós junto ao Pai.

O exemplo de Jesus deve ser seguido por seus discípulos, que somos nós, todos aqueles que professamos crer em Cristo como nosso Senhor e Salvador.

Servir ao próximo é a melhor forma de servir a Deus, porque é o exercício do amor desinteressado, que não espera nada em troca. Sim, nós devemos fazer o bem a todos, ajudar os necessitados, socorrer os enfermos, auxiliar quem está fraco.

Lavar os pés uns dos outros é servir uns aos outros.

Um genuíno discípulo de Cristo está sempre disposto a servir, e não fica esperando que os outros o sirvam. Ele serve ao próximo no trabalho, na escola, nas atividades sociais, na igreja, na família, onde estiver.

Uma pessoa que não tem humildade dificilmente se animará a servir alguém, pelo contrário, sempre esperará ser servida, olhando para os demais como seus servos. O soberbo não raras vezes se julga mais importante do que realmente é, e com isto acredita que todos devem servi-lo, porque, no seu entender, o menor sempre há de servir ao maior.

Mas o pensamento do cristão deve seguir por outra linha: se Jesus, que é Filho do Deus Altíssimo, que tem o poder sobre a vida e a morte, serviu e ainda continua servindo, por que razão nós, que somos meros humanos, criados por Deus, haveremos de nos recursar a servir o nosso próximo?

Jesus disse o seguinte: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo que o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o enviou.” (João 13.15-16)

Está muito claro, na fala de Jesus, que Ele é o Mestre, e que não estamos acima dEle. Se Ele, sendo superior, serviu ao próximo, cabe a nós imitá-lo.

      2)      Portar-se como igual aos demais
Na passagem lida Jesus deixou claro que Ele tinha plena consciência de quem era. Ele assim disse aos discípulos: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou.” (João 13.13).

Jesus não rejeitava sua condição de Mestre e Senhor, todavia, o fato de ser superior a qualquer ser humano não o impediu de se portar com humildade, jamais tentando demonstrar superioridade em relação às demais pessoas, mas colocando-se na mesma condição delas, como se fosse alguém que estava no mesmo nível.

Jesus prosseguiu dizendo: “Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.” (João 13.14). Ou seja, Aquele que é o Senhor e Mestre, embora estivesse muito acima de qualquer ser humano, colocou-se no mesmo nível de todos, nunca olhando as pessoas com superioridade, mas dirigindo-lhes um olhar de amor e dispondo-se a servi-las.

Nós, que não somos divinos como Jesus, não temos o poder que Ele tem, também não temos nenhuma razão para nos considerarmos superiores a quem quer se seja.

Não importa nossa formação, nossa condição socioeconômica, nossos títulos ou qualquer elemento que este mundo considere importante, pois no final das contas somos iguais a todos os demais seres humanos. Todos nós somos criação de Deus, temos início e fim nesta terra, estamos sujeitos às mesmas mazelas e fraquezas.

É bastante interessante um provérbio italiano que, fazendo uso dos elementos do jogo de xadrez, assim diz: “No fim do jogo, o peão e o rei voltam para a mesma caixa”.

Quem conhece o xadrez, que é um jogo de tabuleiro onde o raciocínio é essencial, sabe que cada peça possui determinado valor, sendo o rei a peça mais valiosa, que deve ser protegida a todo custo. O jogo termina quando o rei é capturado pelo adversário. O peão, por sua vez, é a peça de menor valor, o soldado que vai à frente na batalha e geralmente morre primeiro. Mas, como diz o provérbio, quando o jogo termina, todas as peças são reunidas e guardadas na mesma caixa, ou seja, a superioridade do rei desaparece.

Isso representa bem a nossa condição nesta terra. Podemos crescer, prosperar, obter conhecimentos, ser pessoas de destaque na sociedade, todavia, quando chegarmos ao fim de nossa caminhada, não haverá distinção entre ricos e pobres, sábios e néscios, doutores e incultos, pois todos invariavelmente têm o mesmo fim: a morte.

Sim, a morte iguala todos os seres humanos. Morre o forte e morre o fraco. A diferença se verá após a morte, pois os que partirem com Cristo com Ele viverão, mas os que rejeitaram o Filho de Deus, também serão por Ele rejeitados.

Pensar na transitoriedade da vida é muito útil para nos darmos conta de que somos finitos e não temos motivos para nos julgarmos superiores a ninguém. Meditar na grandiosidade da criação de Deus também nos leva a ver o quanto somos minúsculos diante de um universo tão imensurável.

Portanto, se Jesus, nosso Rei, Mestre e Senhor, não se portou como alguém superior aos demais, também nós devemos ser vigilantes para que não venhamos a ser flagrados olhando as pessoas de cima para baixo, com olhar altivo, julgando-nos melhores do que os outros, porque definitivamente não somos melhores do que ninguém. O único que é melhor do que todos agiu como se fosse igual a todos – ou até mesmo inferior a todos -, de maneira que seus discípulos não podem agir de forma diferente.

      3)      Praticar os ensinos de Jesus (obedecer)
Após lavar os pés dos discípulos, Jesus passa a lhes explicar o sentido do que fizera, e complementa dizendo: “Ora, se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes.” (João 13.17).

Jesus acabara de ministrar um ensinamento de extrema importância, e a exortação aos discípulos foi no sentido de que deveriam colocar em prática o ensino recebido, e assim seriam bem-aventurados.

Uma pessoa humilde é ensinável e procura praticar as coisas boas que aprende. Um arrogante, por sua vez, além de rejeitar o ensino não tem disposição para obedecer.

A Bíblia toda nos exorta à obediência. De Gênesis a Apocalipse encontramos ensinamentos para nós e a constante orientação de que façamos conforme o Senhor nos ensina. Em Deuteronômio 28 vamos encontrar as bênçãos decorrentes da obediência, e também as tristes consequências da desobediência.

Na condição de discípulos de Jesus, somos chamados a colocar em prática tudo o que com Ele aprendemos, e, no caso, o Mestre ensinou que devemos ser humildes e servir uns aos outros, contribuindo para o crescimento mútuo.

Um coração humilde acolhe esse ensino e o pratica. Mas se houver soberba no coração, certamente a lição será negligenciada.

Praticar os ensinos de Jesus é um exercício valioso para que possamos desenvolver em nós essa virtude que é uma das colunas da vida cristã: a humildade.

Quando praticamos aquilo que Jesus ensina nós mesmos somos trabalhados em nossa forma de pensar e de enxergar as coisas desta vida. Nossos valores são alterados, e coisas que antes eram muito importantes agora passam a ser dispensáveis, porque tomamos conhecimento de valores muito superiores, baseados no amor, na justiça, na misericórdia, em tudo que Jesus nos transmitiu e que está registrado nas Escrituras.

Obediência é sinal de humildade. Jesus disse o seguinte em outra ocasião: “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que estais ouvindo não é minha, mas do Pai, que me enviou.” (João 14.23-24)

Colocar em prática o que Jesus ensinou é uma demonstração de amor ao próprio Jesus.

Conclusão
Todo aquele que se declara cristão deve se tornar um imitador de Cristo. Certamente nosso mundo seria diferente se todos os cristãos buscassem imitar o Mestre. Mas não somos chamados a julgar os outros, e sim a nós mesmos.

Façamos, então, uma autoanálise para identificar se a fé que professamos tem nos feito pessoas melhores, tem levado transformação a outras pessoas, tem modificado os ambientes por onde transitamos.

Para que nos tornemos imitadores de Jesus, devemos observar suas virtudes e buscar, no poder do Espírito Santo, desenvolvê-las em nossa vida. E uma das virtudes mais importantes, sem a qual as demais praticamente não existirão, é a humildade.

Que o Espírito Santo nos transforme de maneira a quebrar qualquer resquício de orgulho, de arrogância que possa haver em nosso ser, fazendo-nos semelhantes a Jesus em sua humildade, com disposição para servir ao próximo, nunca nos colocando em condição de superioridade em relação a ninguém, e nos empenhando por praticar todos os ensinamentos de nosso Senhor Jesus.

José Vicente