É corrente no meio cristão
evangélico a ideia de que, após sua conversão, Saulo teve seu nome mudado por
Deus para Paulo. Mas será que, realmente, ocorreu essa alteração no nome
daquele que se tornou um dos mais destacados apóstolos na pregação do Evangelho
de Cristo? Vamos analisar o que a Bíblia nos apresenta.
A Bíblia traz alguns relatos de
pessoas que tiveram o nome mudado por Deus em alguma ocasião, e isso é
registrado de forma clara. Podemos citar, por exemplo, Abraão, que, antes, era
chamado Abrão.
Em dado momento, Deus modifica o
nome de Abrão para Abraão (Gn 17.5), que trazia um significado coerente com os
planos que Deus tinha para ele e sua descendência. A sua esposa, Sarai, também
teve o nome mudado para Sara (Gn 17.15).
A partir de então, a Bíblia
sempre registra os seus nomes como Abraão e Sara.
Jacó também teve o seu nome
mudado por Deus, passando a se chamar Israel (Gn 32.28), nome este pelo qual o
povo do Altíssimo também foi chamado, visto se tratar da descendência de Jacó,
ou seja, as 12 tribos se originaram de seus 12 filhos.
Note-se que o texto bíblico é
explícito ao afirmar que essas pessoas tiveram seus nomes mudados por Deus, não deixando nenhuma margem a dúvidas.
Com relação a Saulo, qual é a
passagem bíblica que informa a mudança de nome? Será que ela existe? Vejamos o
que as Escrituras nos mostram sobre esse tema.
Saulo era um fariseu, homem de
elevado conceito entre os judeus, dono de profundo conhecimento da Lei de Deus,
e gozava de posição destacada como um dos líderes religiosos. Ele recebeu
autorização dos principais líderes para que perseguisse os cristãos.
Ocorre que, no capítulo 9 do
Livro de Atos dos Apóstolos, a história de Saulo sofreu uma guinada completa,
pois ali é narrado o seu encontro com Jesus na estrada de Damasco, ocasião em
que foi assim chamado por Jesus: “Saulo, Saulo” (Atos 9.4).
Na sequência da narrativa bíblica,
Jesus ordena que Ananias compareça a determinada casa e procure por Saulo (o
texto ainda traz o nome Saulo, conforme Atos 9.11).
Em cumprimento à ordem de Cristo,
Ananias vai até o local designado e impõe as mãos sobre Saulo, que volta a enxergar.
No texto ele continua sendo identificado como Saulo (Atos 9.17).
Assim que ele começou a pregar
nas sinagogas, ensinando o Evangelho de Cristo, a Bíblia ainda o identificava
como Saulo (Atos 9.22 e 25).
O capítulo 10 de Atos não faz
referência a ele, mas no capítulo 11 seu nome volta a ser mencionado, e
novamente como Saulo (Atos 11.25). É interessante notar que no versículo 26
vemos que ele e Barnabé permaneceram um ano em Antioquia, e quando partiram
para lá já fazia algum tempo que Saulo havia passado pela conversão, mas seu
nome continuava o mesmo. Veja-se que no versículo 30 o nome Saulo foi empregado
para identificá-lo.
Em Atos 12.25 há nova menção a
Saulo, ainda sem nenhuma mudança de nome.
Bem, a esta altura, já podemos
concluir que a afirmação de que o seu nome foi mudado de Saulo para Paulo na
conversão não encontra amparo na Bíblia, pois por muito tempo ele continuou a
ser identificado como Saulo.
Prosseguindo, chegamos ao
capítulo 13 de Atos. Logo no versículo 1 temos nova menção ao apóstolo, e qual
foi o nome utilizado? Isso mesmo, Saulo! Ele foi citado dentre os profetas e
mestres que havia na igreja de Antioquia.
Agora, observe-se a ordem que
eles receberam do Espírito Santo no versículo 2:
“E, servindo eles ao Senhor e
jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a
obra a que os tenho chamado.” (Atos 13.2)
O Espírito Santo se refere a esse
apóstolo como Saulo! Bem, se o seu nome tivesse sido mudado por ocasião da
conversão, é claro que o Espírito Santo não utilizaria o nome velho, mas, sim,
o novo!
Dando início à missão que lhes
fora dada pelo Espírito Santo, Saulo e Barnabé chegaram à ilha de Pafos, e
foram chamados pelo procônsul Sérgio Paulo, que pretendia ouvir o que eles
pregavam. O texto bíblico novamente utiliza o nome Saulo, conforme se vê no
versículo 7.
Mas agora finalmente chegamos ao
texto chave para entendermos se de fato Deus mudou o nome de Saulo para Paulo: Atos 13.9, que assim nos diz:
“Todavia, Saulo, também chamado
Paulo...” (Atos 13.9).
Não há mistério aqui: a Bíblia é
muito clara ao dizer que Saulo TAMBÉM
era chamado Paulo. O que isso significa?
Saulo tinha dupla cidadania. Ele
era judeu, mas também era cidadão romano (Atos 16.37-38; 22.25-29). Saulo era
seu nome judeu, e Paulo era o seu nome romano. Portanto, ele tinha dois nomes,
e poderia ser chamado por qualquer deles. Mas enquanto estava entre os judeus,
por questões lógicas ele utilizava o seu nome judeu. Ao ser enviado a pregar
aos gentios, mostrou-se mais coerente e aproveitável usar o nome romano, até
como uma forma de melhor aceitação entre os não judeus.
Portanto, o nome de Saulo
continuou a ser Saulo até o fim de sua vida, da mesma forma que continuou a ser
também Paulo, pois não houve mudança como muitos creem, entretanto, visto que
seu ministério foi mais voltado aos gentios, a partir de Atos 13.9 e também em
suas epístolas ele passou a se identificar apenas como Paulo, seu nome romano.
Para concluir, esclareço que era
comum pessoas serem conhecidas por dois nomes naquele tempo. É o caso, por
exemplo, de Silas, que também era chamado Silvano. Ele era judeu, mas tinha
cidadania romana assim como Paulo (Atos 16.19 e 37-38). Silas seria a forma grega de seu nome, e Silvano, conforme estudiosos, seria a forma latinizada desse mesmo
nome, sendo citado em algumas cartas de Paulo (2Cor 1.19; 1Tes 1.1 e 2Tes 1.1).
Mas, não importa qual era o nome
desses servos de Deus, se Saulo ou Paulo, Silas ou Silvano, pois o que deve
ocupar nossa mente é o exemplo que eles deixaram, tendo se dedicado ao Senhor
Jesus com amor e abnegação, expondo a própria vida para que muitos conhecessem
o Evangelho de Cristo.
Que esses homens e outros mais
que constam na Bíblia nos sirvam como motivação para não desanimarmos diante
das pressões e adversidades, mas prosseguirmos confiando em Deus, sendo fiéis e
não nos conformando ao presente mundo, seguindo o grande exemplo do Mestre
Jesus.
Que Deus nos abençoe e nos
capacite.
José Vicente
1º.05.2017